Artigo
Governança, eficiência e inovação: uma gestão pública que faz diferença na sua vida
Autor: Washington Silva* –
Quando uma consulta médica acontece no tempo adequado, uma escola oferece boas condições de ensino ou um serviço público pode ser solicitado sem burocracia, existe um trabalho de planejamento e gestão acontecendo nos bastidores.
É nesse espaço que atuam a governança, a eficiência e a inovação. Embora pareçam conceitos técnicos, seus resultados são percebidos no cotidiano: no tempo economizado, na qualidade do atendimento e na correta aplicação dos impostos.
Governança é decidir com responsabilidade
Governança pública significa estabelecer prioridades, acompanhar resultados e prestar contas à sociedade. Em outras palavras, é fazer com que as decisões do governo sejam tomadas com planejamento, transparência e foco no interesse coletivo.
Para o cidadão, uma boa governança representa maior segurança de que os recursos públicos serão direcionados às necessidades mais importantes.
Em um estado com as dimensões de Mato Grosso, isso exige atenção às diferentes realidades regionais. As necessidades de quem mora nos grandes centros não são necessariamente as mesmas de quem vive no interior, no Pantanal, no Araguaia ou em comunidades rurais.
Por isso, as políticas públicas devem ser construídas com base em dados, conhecimento técnico e diálogo com a população.
Eficiência é respeitar o seu tempo e o seu dinheiro
Ser eficiente não significa apenas gastar menos. Significa utilizar bem os recursos disponíveis para atender melhor, alcançar mais pessoas e produzir resultados concretos.
Cada documento desnecessário, informação solicitada mais de uma vez ou deslocamento que poderia ser evitado representa tempo e dinheiro perdidos pelo cidadão.
A eficiência aparece quando um processo é simplificado, o atendimento se torna mais rápido ou diferentes órgãos trabalham de forma integrada. Também está presente quando uma política pública é avaliada para verificar se realmente beneficia quem mais precisa.
Mato Grosso já conta com iniciativas voltadas a essa cultura, como o Índice de Governança e Eficiência de Mato Grosso (IGEF-MT), criado para avaliar resultados, boas práticas, simplificação de processos e inovação nos órgãos estaduais.
Inovar é encontrar maneiras melhores de atender
Inovação não é apenas criar aplicativos ou utilizar novas tecnologias. No serviço público, inovar é encontrar soluções melhores para os problemas da população.
Pode ser um atendimento digital que evita uma longa viagem, uma nova forma de organizar filas ou um sistema que permita acompanhar uma solicitação. Também pode ser uma mudança simples em um procedimento, desde que facilite a vida das pessoas.
A transformação digital deve aproximar o cidadão do Estado, sem deixar ninguém para trás. Nem todos possuem acesso adequado à internet ou facilidade com ferramentas digitais. Por isso, a inovação responsável deve manter alternativas de atendimento, garantir acessibilidade e proteger os dados pessoais.
O cidadão deve estar no centro
Governança, eficiência e inovação só fazem sentido quando melhoram a vida das pessoas. Para isso, o poder público precisa observar seus serviços pela perspectiva de quem os utiliza.
A informação é fácil de encontrar? A linguagem é clara? Os documentos exigidos são realmente necessários? Quem mora longe consegue ser atendido? Existem canais para sugestões e reclamações?
Responder a essas perguntas ajuda a construir serviços públicos mais simples, inclusivos e próximos da realidade da população.
Os gestores governamentais contribuem para esse processo ao planejar ações, integrar diferentes áreas e avaliar resultados. A Associação dos Gestores Governamentais do Estado de Mato Grosso (AGGEMT), por sua vez, atua pela valorização e pelo desenvolvimento dessa carreira, incentivando uma gestão pública profissional e comprometida com a sociedade.
No fim, uma boa gestão pública é aquela que o cidadão percebe: no atendimento que funciona, no recurso bem aplicado e no direito que se torna realidade.
Governança orienta as decisões. Eficiência transforma recursos em resultados. Inovação abre novos caminhos. Juntas, elas ajudam a construir um Estado mais simples, transparente e próximo de todos os mato-grossenses.
*Washington Silva é gestor governamental, Administrador, Mestre em Inovação e hoje ocupa o cargo de Superintendente de Governança para Resultados, Eficiência e Inovação, na Seplag-MT.
Artigos
Candidato pode desafiar a democracia?
Autor: Ricardo Viveiros* –
Não é apenas o voto que sustenta uma democracia. Ela depende, sobretudo, da confiança da sociedade nas regras do jogo. Quando um líder político, em especial alguém que disputa a Presidência da República, coloca sob suspeita o sistema eleitoral sem apresentar provas consistentes, não atinge apenas uma instituição. Abala a credibilidade do próprio regime democrático.
O Brasil utiliza urnas eletrônicas há décadas. Ao longo desse período, o sistema foi aperfeiçoado, submetido a auditorias, testes públicos de segurança e fiscalização por partidos políticos, Ministério Público, Forças Armadas, Ordem dos Advogados do Brasil, engenheiros e técnicos do Comando-Geral de Tecnologia Aeroespecial (CTA) e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), além de observadores internacionais. A Justiça Eleitoral afirma, de modo recorrente, que as urnas brasileiras não são produzidas pela empresa venezuelana Smartmatic, desmentindo fake news que circulam de tempos em tempos tentando desacreditar o sistema.
Foi em um encontro com diplomatas estrangeiros, em 2022, no qual o então presidente Jair Bolsonaro fez acusações sem provas contra o processo eleitoral, que deu fundamento para sua condenação por abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Sem considerar outras ações judiciais envolvendo o ex-presidente, aquele episódio tornou-se um marco por demonstrar que a liberdade de expressão de um agente público não autoriza a divulgação de informações falsas capazes de comprometer a confiança nas eleições. Condenado pelo TSE por tais declarações, Jair Bolsonaro se tornou inelegível por oito anos.
Agora, ao reunir diplomatas e repetir alegações semelhantes às do pai sobre as urnas eletrônicas, Flávio Bolsonaro revive uma estratégia mentirosa que já produziu graves consequências institucionais para seu pai e seu próprio grupo político. A repetição da narrativa desperta inevitáveis comparações e levanta uma questão política relevante: qual o objetivo de desacreditar, antes do pleito, um sistema eleitoral do qual o próprio candidato pretende participar?
Críticas ao processo eleitoral são normais. Em uma democracia, tudo pode e deve ser questionado. O limite está na forma. Críticas legítimas exigem evidências; acusações graves exigem provas concretas. Sem elas, o debate público cede lugar à desinformação. Liberdade de expressão exige responsabilidade de expressão, digo isso há anos.
Cabe apenas à Justiça Eleitoral e aos órgãos competentes avaliar se as declarações configuram ilícitos eleitorais ou outros crimes, à luz da Constituição e da legislação vigente. Não é papel deste articulista antecipar condenações nem substituir os tribunais. Mas é legítimo perguntar se candidatos que insistem em desacreditar, sem provas, o mecanismo que organiza a própria eleição demonstram o compromisso democrático esperado de quem pretende governar o país. Alguém que faz isso, não deveria ter a candidatura impedida? Não deveria se tornar inelegível, com base na jurisprudência? Há um ditado da sabedoria popular que afirma: “O pau que bate em Chico, bate em Francisco”.
Muito além da disputa entre partidos está a preservação da confiança coletiva nas eleições. Democracias sobrevivem porque seus adversários aceitam as regras antes da votação e respeitam o resultado depois dela. Quando essa premissa é colocada em dúvida sem fundamento, perde-se muito mais do que uma campanha eleitoral: enfraquece-se a própria democracia brasileira.
*Ricardo Viveiros, jornalista, professor e escritor, é doutor em Educação, Arte e História da Cultura (UPM); membro da Academia Paulista de Educação (APE) e conselheiro da Associação Brasileira de Imprensa (ABI); autor, entre outros livros, de A vila que descobriu o Brasil, Memórias de um tempo obscuro e O sol brilhou à noite. Apresenta aos domingos, às 7 horas (da manhã), pela TV Cultura, o programa “Brasil, mostra a tua cara!”.
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