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AQUI JAZ A VERGONHA

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Autor: Rui Perdigão –

Que bom seria conseguir-se resolver a pandemia com uma vacina. E ainda melhor seria conseguirmos resolver a economia com uma segunda dose. É pertinente lembrar que as vacinas destinam-se a combater infecções que podem levar a óbito, mas somente a óbitos futuros, porque nos óbitos já inscritos elas não têm qualquer efeito. É também importante mencionar que todas as mortes ocorridas ao longo dos últimos tempos, junto com as que estão por vir, todas elas têm um profundo impacto no afetivo-emocional de seus entes queridos, bem como enormes repercussões na estrutura e na dinâmica de muitas e muitas famílias.

Esta capacidade de transformar a vida das pessoas, não pode, em momento algum, ser interpretada como um dano colateral, sempre condescendentemente aceito no decorrer de uma guerra. Tem outro cenário nesta guerra que nunca podemos perder de vista.

Quem for vacinado, ou não, mas tenha sido histórica e pornograficamente desfavorecido e colocado à margem da sociedade “sairá” deste momento trágico em situação de vida muito pior. Independente de a propaganda falar que esta crise humanitária trará o desenvolvimento de uma maior solidariedade e equidade social é de extrema importância não se deixar levar por essa treta. Existem sérias dúvidas que após a pandemia o mais comum dos mortais venha a desfrutar de melhorias de acesso e de tratamento nos serviços públicos de saúde. Tudo aponta para que depois da curva verifique-se o achatamento de contratos e serviços. E no final, muito provavelmente, restará só mais uma vacina no plano nacional de imunização, não mais reconhecido mundialmente pela sua excelência.

Apesar de tudo isso, em dada altura o Brasil vai conseguir mudar o atual quadro exposto desapegadamente a céu aberto. No entanto, neste preciso momento, torna-se adequado perceber que o país não está perante uma lição que precisa ser estudada e debatida, mas sim na posse de um resultado desastroso. Que se tem em mãos uma prova reveladora da absoluta falta de conhecimentos básicos, merecedores de uma péssima nota, não de pesar ou de rodapé, mas sim de seleção. Este “ENEM” Exercício Nacional de Emancipação e Maturidade, aplicado sem aviso prévio a todos os brasileiros, veio demonstrar de forma inequívoca que muita boa gente considera não ser necessário saber-se fazer as coisas. Que ainda dá para fazer de qualquer jeito. Isso faz-me recordar o dia que pintava o muro do quintal do meu jeito e o meu filho veio pedir-me para ajudá-lo a colocar a sua pequenina nave na lua. Rápido respondi-lhe que não ia fazer isso. Porém, mais tarde e mais atento pude corrigir-me e explicar-lhe que isso não ia ser fácil, pois o pedido dele era um enorme desafio muito semelhante à luta que se trava contra um vírus capaz de destruir a espécie humana e que essa missão planetária só teria sucesso se tivesse a força combinada de vários saberes, diferentes chefes e muitas, muitas outras pessoas. Ele conseguiu entender fácil, mas eu acho que não consigo compreender o lance de se jogar milhões e bilhões sobre um problema, sabendo-se já, através dos livros de história, que esse jeito de resolver as coisas não é por si só uma solução milagrosa.

Como não sei decifrar o enigma dos milagres, sempre me questiono onde estão os mais responsáveis, mas não vou esconder o quanto isso me deixa desnorteado. Fico sem saber se sonhei ou vi todo o tipo de executivos perdidos de um lado para outro, seguidos por legislativos iluminados por uma luz própria, mas totalmente desfocados, debaixo do voo de um grupo de freelancer dispostos a baixar jurisprudência. Nem sei de onde veio a imagem da academia afastada, acossada a um canto de uma sociedade isenta de ritmo, mas muito alinhada com movimentos comerciais e correrias policiais. Até aqueles militares pelados da farda e pastores em vassouras parecem-me um sonho onde só o pessoal da saúde e da limpeza se apresenta com alguma lógica. Felizmente que temos jornalismo, assim fico mais seguro não se tratar de alucinações, mas sim de uma brincadeira generalizada onde se deita por terra a vergonha junto com o povo.

Rui Perdigão – Administrador, geógrafo e presidente da Associação Cultural Portugueses de Mato Grosso.

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Como evitar que os fracassos definam nossa identidade?

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Autor: Luis Carlos Marques Fonseca*

A pressão para sermos bem-sucedidos social e economicamente transformou erros e perdas em uma crise de identidade coletiva. Ao observarmos a sociedade atual, percebemos que a angústia de “não atingirmos determinados resultados que desejamos” nasce, em grande parte, da incapacidade de separar nossos resultados de quem essencialmente somos. Por que permitimos que um tropeço se transforme em uma sentença? A resposta, embora complexa, reside na forma como construímos nossa identidade, pois a chave para a liberdade não é a ausência de tropeços, mas a prática consciente da não identificação com as nossas conquistas e fracassos.

A sociedade contemporânea nos empurra para uma fusão perigosa entre o “fazer ou ter” e o “ser”. Se um projeto colapsa, a pessoa se sente inferior; se um papel social se desfaz, ela sente que perdeu a “razão de viver”. No entanto, precisamos resgatar a perspectiva do ator e do personagem. O seu “Eu Real” é o ator; as circunstâncias da vida — o emprego, os sucessos, as posses, as relações sociais, as crises — são apenas papéis no palco. O ator se entrega ao papel com intensidade e responsabilidade, mas ele nunca esquece que, ao fechar das cortinas, sua essência permanece intacta, independentemente de o personagem ter triunfado, fracassado ou perecido.

Para evitar que uma fissura se torne um trauma limitante, é preciso aprender a extrair a essência da experiência, e tornar-se mais consciente de si mesmo. Quando erramos, temos dois caminhos: carregar a dor do “erro” como um trauma que limitará futuras ações ou aprender com ele, tornando-se mais aptos a integrar conscientemente novas situações mais complexas de vida. O fracasso só define a identidade daquele que não é capaz de aprender com os próprios deslizes. Quando assumimos a responsabilidade pelos nossos erros, temos a possibilidade de correção, paramos de culpar a nós mesmo, aos demais ou ao destino e retomamos as rédeas do nosso caminho, de sermos cada vez mais conscientes.

Viver sem apego excessivo aos resultados não significa agir com indiferença, mas sim aproveitar com plenitude cada momento presente. O “Eu Artificial” adora habitar o passado, remoendo mágoas e falhas antigas para justificar o medo do futuro e a responsabilidade de ser o dono do próprio destino. Estar inteiro no agora, fazendo uso de toda experiência acumulada, é a única forma de impedir que a memória negativa e o apego às nossas conquistas e fracassos passados ditem nossos próximos passos.

As conquistas e fracassos, portanto, devem ser vistos como oportunidades de aprendizado. São experiências necessárias para o despertar das virtudes próprias de nossa verdadeira identidade: a Vontade, a Intuição e a Inteligência. Quando deixamos de rejeitar a queda e passamos a observar o que ela nos ensina, a identidade deixa de ser um castelo de cartas vulnerável ao vento das circunstâncias e se torna uma estrutura sólida, forjada na experiência e na sabedoria de quem se identifica com algo em si mesmo que está além de qualquer resultado passageiro.

Não somos o que nos acontece; somos seres conscientes que decidem o que fazer com aquilo que acontece. O palco pode mudar, mas o ator, se estiver consciente de si, jamais se perde na cena.

*Luis Carlos Marques Fonseca é diretor-presidente da Nova Acrópole Brasil Norte e autor do livro Filosofia: O caminho da liberdade (Hanoi Editora).

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