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A memória d’O Pasquim Sul está viva!

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Autor: Flávio Braga*

No início dos anos 80, eu morava no Rio de Janeiro, trabalhando como roteirista de cinema e peças de teatro – muitas delas proibidas pela censura -, mas sentia saudades da amada Porto Alegre. Durante este período, na capital gaúcha, grupos de amigos mais liberais se reuniam em locais variados. Dentre eles, o Chalé da Praça XV, um belo bar e restaurante onde artistas e militantes se encontravam. De mesa em mesa, de mãos em mãos, circulava o jornal O Pasquim, editado, no Rio de Janeiro por corajosos heróis da sátira jornalística brasileira.

Durante aquela década, surgiu a informação de que o periódico iria expandir-se por outros estados, criando entre os gaúchos o desejo de participar dessa gloriosa iniciativa. Rodas no bar Chalé, com Marcos Klassman e Glênio Peres, dentre outros, sonhavam com o Pasquim Sul. Porém, os dias foram passando e os compromissos pessoais preenchendo as agendas, tornando o desejo cada vez mais distante.

Foi quando resolvi tomar a iniciativa. Visitei a redação d’O Pasquim, ali na Rua da Carioca, buscando a chance de criar a versão regional do melhor jornal satírico do país. Na época, tinha 31 anos e era leitor assíduo do Pasquim desde a adolescência. Emocionalmente tomado, me declarei Pasquim-maníaco para o Jaguar, um dos fundadores do semanário, e ele aceitou a minha proposta.

Retornei para Porto Alegre em 1983 com um documento que autorizava a criação do Pasquim Sul. A partir daí, iniciei uma nova batalha. Levei quase dois anos inteiros para conseguir estrutura suficiente para lançar o jornal. E só consegui porque encontrei Carlos de Noronha Feio, um português articulado que conhecia as manhas do poder. Além dele, consegui o auxílio de Coi Lopes da Almeida, jornalista com o perfil ideal para um jornal satírico.

Daí em diante foi uma campanha que durou quase dois anos. Apesar da luta contra o reacionarismo e outros problemas típicos, tudo estava indo bem. Tínhamos público e anunciantes de peso, pelo menos no início do projeto.

A publicação sulista d’O Pasquim resistiu por 60 edições. Da primeira à última página, conseguimos manter de pé o tradicional tom crítico e autêntico da marca. Na reta final, porém, os anunciantes já não queriam dividir espaço com nossas farpas contra autoridades expoentes da época, sobretudo o presidente de momento, José Sarney, que inclusive ilustrou a nossa última capa. Tanto é que, nessa edição final, só havía quatro anunciantes expostos nas 20 páginas da publicação.

Isso, porém, não apaga em nada o projeto. Pelo contrário, aliás. Foi uma experiência esplêndida, de jornalismo e de relacionamento político e cultural. Muitos cartunistas e autores começaram conosco naquele período e são referência até hoje. A história merece outro tratamento – quem sabe não um livro? Fico feliz que, com o projeto de digitalização, as edições gaúchas estejam novamente disponíveis e agora acessíveis, por meio da Biblioteca Nacional, para um público muito maior.

Valeu a pena!

*Flávio Braga é escritor, com 14 livros publicados pela editora Record, dramaturgo e roteirista gaúcho, que vive no Rio de Janeiro há 34 anos e foi o diretor responsável pela franquia Sul d’O Pasquim nos anos 80

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Artigos

Quando a luz some: quem tem coragem de ficar?

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Autora: Soraya Medeiros*

Relações verdadeiras se revelam nos dias difíceis — não nos momentos de aplauso

Vivemos na era do espetáculo. Entre redes sociais e encontros cada vez mais superficiais, somos incentivados a mostrar apenas a melhor versão de nós mesmos: o sorriso ensaiado, as conquistas recentes, a força que parece não falhar. Há uma cobrança silenciosa por felicidade constante, como se viver fosse um palco — e nós, personagens de uma história sempre bem resolvida.

Sob essa luz, é fácil atrair aplausos. Sempre haverá plateia para quem brilha.

Mas a vida não se sustenta apenas nos momentos iluminados. Há dias nublados, silêncios difíceis e cansaços que não cabem em nenhuma postagem. É nesses momentos — longe dos holofotes — que as relações mostram o que realmente são. O verdadeiro teste de qualquer vínculo não acontece na celebração, mas na ausência dela.

Há pessoas que orbitam ao nosso redor enquanto tudo vai bem. São presenças agradáveis, mas condicionais. Compartilham alegrias, celebram conquistas, admiram a força. Porém, diante da primeira dificuldade, se afastam. Não com rupturas explícitas, mas com ausências discretas — como se a vulnerabilidade fosse incômoda demais para ser acolhida.

O psicólogo Carl Rogers, referência da psicologia humanista, defendia que relações genuínas se constroem a partir da aceitação incondicional — quando somos acolhidos não apenas pelo que temos de melhor, mas também pelas nossas fragilidades. Na mesma linha, a pesquisadora Brené Brown aponta que a vulnerabilidade não é fraqueza, mas uma expressão de coragem. É nela que nascem as conexões reais.

Amadurecer também é aprender a escolher quem permanece.

Escolher quem não se intimida com dias difíceis. Quem não exige versões editadas. Quem não transforma dor em incômodo. Valorizar quem fica, mesmo quando não há nada a oferecer além da própria presença.

A conexão verdadeira não nasce da perfeição, mas da inteireza. Ela existe quando alguém é capaz de enxergar valor não apenas na luz, mas também nas partes cansadas e humanas. Há dignidade no cansaço, na dúvida e na pausa — e só quem se importa de verdade reconhece isso.

Trocar quantidade por qualidade nas relações é um passo essencial para a saúde emocional. No fim, não são muitos que permanecem — são poucos. E são esses poucos que sustentam o vínculo quando tudo parece mais difícil.

São eles que permanecem quando a luz some.

*Soraya Medeiros é jornalista.

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