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Onofre Ribeiro: – Sufoco pra ligar pro parentes

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                                Sufoco pra ligar pro parentes

Por: Onofre Ribeiro – 

Antes que algumas estórias desapareçam, é preciso contá-las e recontá-las. Até 1973, Mato Grosso era muito isolado. Surgira em maio o asfalto ligando Cuiabá a Goiânia e a Campo Grande. Começava a ocupação do médio norte, do nortão e do noroeste de Mato Grosso, assim como do nordeste, de Barra do Garças para cima. Em 1976, cheguei a Mato Grosso. Fui a Sinop e conheci um acampamento construído de casas de madeira entre algumas ruas poeirentas. Pioneiros, na sua maioria paranaenses, acreditavam num futuro que só eles viam e percebiam. Na seca, a poeira subia a meio metro de altura e parecia nuvens de talco marrom. O solo amazônico é diferente.

Na chuva, a lama arrasava o solo frágil e tudo virava um atoleiro sem fim. Em 1982 dormi dentro de uma pick-up C-10 afundado num atoleiro, em profunda guerra com os mosquitos da região. Eles pareciam soldados defendendo o seu território contra o bicho-homem que invadia o seu mundo. Dormimos com fome, acordamos com fome e passamos fome o dia inteiro. Ninguém subia, ninguém descia. Um milagroso trator de uma fazenda nos arrastou e saímos ziguezagueando no campo tentando nos livrar da lama. Atolamos muitas outras vezes antes de chegarmos a Nobres.

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Como nós, dezenas de caminhões levando combustíveis, comida e outros materiais também dormiam atolados por semana inteira naquele pantanal amazônico de lama. Pior. Mais acima, Alta Floresta sofria mais ainda, 320 km ao norte, dentro da portentosa floresta amazônica. Gente dali quando queria telefonar pros parentes, precisava enfrentar a rodovia BR-163, construída em 1976, chegar a Cuiabá e gritar feito doido nas cabines telefônicas da Telemat, a empresa telefônica de então.

Depois da enorme luta pra vencer os 500 km desde Sinop, os paranaenses pioneiros passavam o dia ou a noite sentados na frente de cabines da Telemat esperando a sua vez de gritar pros parentes distantes. Fila imensa. Chegavam ao balcão, davam o nome e o número desejado e escutavam a sentença: "senta e aguarda a chamada". Dia inteiro ali, pregado porque podia sair até pra comer e ser chamado. Voltava pro fim da fila. Outra espera. Finalmente, às vezes, no fim do dia a moça da recepção gritava: "Sr. Fulano, ligação de Palotina na cabine três". Não tinha segredos. Todo mundo gritava as suas falas. Uma solidariedade silenciosa entre todos como um pacto de sofrimento e de saudade dos parentes: pais, irmãos, filhos, esposa, namoradas…

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Compras no comércio, o descanso hospedados nuns hoteizinhos do centro, pra pegar de novo a longa estrada. Cheios de notícias subiam os 500 km até Sinop ou mais, para outras regiões de colonização. Dois meses depois a saudade os empurrava norte-sul pra gritar de novo com os seus amados distantes.

Em 1980 veio a telefonia lá em Sinop e em Alta Floresta. Em 1984 o asfalto até Santa Helena, pertinho de Alta Floresta. Lá também chegou em 1986. O posto da Telemat fechou na Praça Rachid Jaudy em Cuiabá e virou uma loja de eletrodomésticos populares. Quem sabe nas suas paredes gastas ainda ecoem os gritos de solidão e de saudades de pioneiros. Seus filhos hoje falam com a mundo através de smartfones. A Telemat acabou. E quando querem, seus descendentes descem de jatos na direção do Sul do país. Acho quem nem as saudades resistiram. Morreram junto com a maioria daqueles pioneiros das longínquas décadas de 1970 e de 1980. Pioneiro, restam, alguns, em velhas fotos penduradas na parede. Se tanto… Foram-se com a sua história!

Onofre Ribeiro é jornalista em Cuiabá
[email protected]    
www.onofreribeiro.com.br 

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O diploma deixou de ser ponto final: a nova transformação do ensino superior

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Autor: Jânyo Diniz*

Durante décadas, o ensino superior foi organizado em torno de uma lógica relativamente estável: escolher um curso, obter um diploma e ingressar em uma carreira que, com variações, acompanharia o profissional por boa parte da vida. Esse modelo já não descreve o mundo real. Nos últimos anos, a transformação do mercado de trabalho, acelerada pela tecnologia, encurtou carreiras, fragmentou ocupações e colocou em xeque a ideia de que a formação superior é um ponto de chegada.

Os dados ajudam a entender essa ruptura. Estudos internacionais indicam que as competências técnicas mais demandadas hoje podem se tornar obsoletas em menos de cinco anos. Ao mesmo tempo, novas funções surgem em ritmo superior à capacidade tradicional de atualização curricular. O resultado é um descompasso estrutural: tecnologias avançam mais rápido do que os currículos e o diploma, isoladamente, já não garantem inserção sustentável no mercado.

Esse cenário impõe uma revisão profunda do papel das universidades. A expansão do acesso, especialmente com o crescimento da educação a distância, foi um avanço relevante. Mas escala, sozinha, não resolve o problema. O desafio contemporâneo é transformar acesso em capacidade contínua de adaptação.

Por isso, reforço aqui que o futuro da educação superior passa por cinco mudanças claras. A primeira é abandonar a lógica restrita da empregabilidade — centrada em preparar para uma vaga específica — e avançar para a trabalhabilidade. Em um mundo de ocupações mutáveis, formar para o trabalho significa desenvolver competências transferíveis: aprender a aprender, resolver problemas complexos, colaborar em ambientes digitais e gerar valor em diferentes contextos produtivos.

A segunda mudança é reconhecer a Inteligência Artificial como nova alfabetização. Assim como ler e escrever foram condições básicas de participação social em outros períodos históricos, compreender, usar criticamente e supervisionar sistemas de IA tornou-se uma competência fundamental. Não se trata de formar programadores em massa, mas cidadãos e profissionais capazes de interagir com algoritmos de forma ética, produtiva e responsável.

O terceiro ponto é a necessidade de currículos mais flexíveis, modulares e empilháveis. O diploma único, linear e fechado perde espaço para trajetórias formativas adaptáveis, que combinam graduação, microcredenciais e certificações intermediárias. Esse modelo permite respostas mais rápidas às mudanças tecnológicas e reduz o custo de atualização profissional ao longo da vida.

A quarta transformação diz respeito à forma como as competências são comprovadas. O mercado começa a valorizar não apenas o título formal isolado mais agregado a portfólios que demonstrem competências reais, projetos desenvolvidos, problemas resolvidos e experiências aplicadas. Avaliar apenas por provas tradicionais já não captura o que realmente importa em ambientes de trabalho complexos.

Por fim, consolida-se a aprendizagem contínua ao longo da vida como eixo estruturante. O ciclo “estudar-trabalhar-encerrar a formação” tornou-se incompatível com a realidade. A educação superior passa a ser uma plataforma permanente de atualização, requalificação e reinvenção profissional e não um serviço consumido apenas no início da vida adulta.

Essas mudanças não são teóricas. Países que avançaram nessa agenda conseguem reduzir o hiato entre formação e trabalho, melhorar a produtividade e proteger seus profissionais em períodos de transição tecnológica. Aqueles que insistirem em modelos rígidos correm o risco de formar para um mundo que já não existe.

Universidades que compreenderem esse movimento não apenas formarão profissionais. Formarão protagonistas, capazes de se reinventar em um ambiente de incerteza permanente. Isso exige coragem institucional, revisão regulatória e disposição para medir resultados reais de aprendizagem e inserção produtiva.

O diploma deixou de ser ponto final. Passou a ser apenas o inicio de uma trajetória que precisa acompanhar a velocidade do mundo. A Instituição de ensino superior que entender isso continuará relevante. A que ignorar, ficará para trás junto com as promessas que já não consegue cumprir.

*Jânyo Diniz, vice-presidente da CONFENEM e CEO do Grupo Ser Educacional

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