Artigo
O que as lendas dizem sobre nós?
Autora: Deyse O. S.* –
Lendas costumam ser tratadas como histórias do passado. São associadas a castelos abandonados, criaturas fantásticas e crenças antigas que teriam perdido espaço em uma sociedade guiada pela ciência e pela tecnologia. No entanto, basta observar sua permanência na cultura popular para perceber que elas continuam exercendo fascínio sobre milhões de pessoas.
O motivo talvez seja mais simples do que parece: as lendas nunca falam apenas sobre monstros. Elas falam sobre seres humanos.
Ao longo da história, diferentes sociedades criaram narrativas para explicar o desconhecido, transmitir valores ou dar forma a medos coletivos. Em muitas delas, as criaturas sobrenaturais representam preocupações bastante reais. Vampiros, fantasmas, lobisomens e outras figuras lendárias costumam refletir temas como morte, poder, ambição, isolamento, violência ou medo do que não compreendemos.
Drácula é um exemplo interessante. Mais do que um personagem assustador, ele atravessou gerações porque simboliza inquietações humanas que continuam atuais. Sua história envolve sedução, controle, imortalidade e a dificuldade de lidar com aquilo que desafia nossos limites. O personagem mudou ao longo do tempo, mas os questionamentos que ele desperta permanecem vivos.
Mesmo em um mundo conectado por redes sociais, acesso instantâneo à informação, histórias baseadas em lendas continuam atraindo leitores, espectadores e pesquisadores. Isso acontece porque o interesse por essas narrativas não depende da crença literal em criaturas sobrenaturais, mas da capacidade que elas possuem de abordar questões humanas universais de forma simbólica e acessível.
O mesmo acontece com inúmeras lendas ao redor do mundo. Embora cada cultura tenha seus próprios mitos, muitas delas compartilham uma característica comum: funcionam como espelhos. Ao ouvir essas histórias, as pessoas não observam apenas criaturas fantásticas. Elas observam seus próprios receios, desejos e contradições.
Em uma época marcada por avanços tecnológicos sem precedentes, pode parecer contraditório que narrativas centenárias continuem despertando interesse. Mas talvez seja justamente por isso que elas sobrevivam. As ferramentas mudam, os costumes mudam e as sociedades se transformam. A natureza humana, porém, continua fazendo as mesmas perguntas fundamentais.
As lendas permanecem importantes porque ajudam a refletir sobre quem fomos, quem somos e quem podemos nos tornar. Elas preservam memórias culturais, atravessam gerações e oferecem novas interpretações a cada época. No fim, os monstros que habitam essas histórias raramente falam sobre eles mesmos. Quase sempre falam sobre nós.
*Deyse O. S. – é escritora e autora do livro “Cem anos depois”, que expande o universo de Bram Stoker ao narrar investigações ocorridas 100 anos depois da morte de Drácula
Artigos
Lipedema: quando a balança não conta toda a história
Autora: Mariana Ramos* –
Junho é o mês de conscientização sobre o lipedema, uma condição que vem ganhando visibilidade nos últimos anos, mas que ainda é cercada por desinformação, preconceitos e diagnósticos equivocados.
Talvez uma das maiores dificuldades enfrentadas pelas mulheres com lipedema seja ouvir, repetidamente, que o problema seria apenas excesso de peso. Muitas passam anos tentando diferentes dietas, intensificando a prática de exercícios físicos e enfrentando sentimentos de culpa por não conseguirem alcançar os resultados esperados. O que poucas sabem é que, em muitos casos, a explicação pode estar além da balança.
O lipedema é uma doença crônica que afeta principalmente mulheres e se caracteriza pelo acúmulo desproporcional de gordura, especialmente nas pernas e, em alguns casos, nos braços. Diferentemente da obesidade, essa gordura apresenta características próprias: costuma ser dolorosa, sensível ao toque, associada a hematomas frequentes e costuma reduzir de forma menos proporcional que outras regiões do corpo durante a perda de peso. Além disso, geralmente poupa pés e mãos, criando uma desproporção corporal bastante característica.
Nos últimos anos, a endocrinologia passou a olhar para essa condição com ainda mais atenção. Isso porque o tecido adiposo deixou de ser entendido apenas como um depósito de gordura. Hoje sabemos que ele funciona como um órgão metabolicamente ativo, capaz de produzir substâncias inflamatórias, influenciar hormônios e impactar diversos sistemas do organismo.
Nesse contexto, o lipedema mostra que nem toda gordura corporal se comporta da mesma forma. Alterações no tecido adiposo podem gerar repercussões que vão muito além da estética.
Estudos recentes apontam a participação de fatores hormonais, genéticos e alterações locais do tecido adiposo no desenvolvimento da doença, o que ajuda a explicar por que ela costuma surgir ou piorar em fases marcadas por grandes mudanças hormonais, como puberdade, gravidez e menopausa.
É justamente aí que a endocrinologia exerce um papel fundamental. Embora não exista um exame laboratorial capaz de confirmar o diagnóstico, a avaliação endocrinológica contribui para identificar condições associadas, avaliar fatores metabólicos, investigar a presença de obesidade quando ela existe e construir estratégias individualizadas para reduzir sintomas e melhorar a qualidade de vida.
Outro ponto importante é compreender que obesidade e lipedema não são sinônimos. As duas condições podem coexistir e frequentemente se potencializam, mas possuem mecanismos distintos. Quando essa diferença não é reconhecida, muitas pacientes acabam recebendo orientações inadequadas e carregando uma culpa que não deveria existir.
Falar sobre lipedema é também falar sobre acolhimento. É reconhecer a dor física, mas também o impacto emocional de uma doença frequentemente invisível. É lembrar que muitas mulheres passaram anos sendo julgadas antes de serem diagnosticadas.
Neste mês de conscientização, o convite é para que olhemos para além da estética e compreendamos o lipedema como ele realmente é: uma condição médica que merece diagnóstico adequado, acompanhamento multiprofissional e, acima de tudo, respeito. O reconhecimento precoce da doença permite orientar medidas que podem ajudar no controle dos sintomas e na preservação da qualidade de vida.
Porque nem toda dificuldade para perder medidas está relacionada à falta de esforço. Às vezes, a resposta está em uma doença que precisa ser reconhecida.
*Mariana Ramos é endocrinologista na Fetal Care, em Cuiabá-MT.
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