Artigo
Governo mira pequenas e médias empresas para fechar rombo fiscal
Autor: André Charone* –
Em meio às dificuldades para cumprir a meta de superávit no próximo ano, o governo decidiu mirar em um alvo sensível: as pequenas e médias empresas. O Projeto de Lei Complementar (PLP 182/2025), apresentado pelo líder do governo na Câmara, deputado José Guimarães (PT-CE), prevê um aumento de 10% nos percentuais de presunção da base de cálculo do Lucro Presumido para empresas que faturam acima de R$ 1,2 milhão por ano.
A medida é parte de um pacote que busca reforçar a arrecadação em aproximadamente R$ 19,8 bilhões e reduzir renúncias fiscais vistas como “distorções” no sistema.
O impacto na prática
Atualmente, empresas de serviços calculam IRPJ e CSLL sobre 32% da receita bruta. Com a proposta, esse percentual saltará para 35,2% na parcela que exceder o limite de R$ 1,2 milhão anual. No comércio, o ajuste é de 8% para 8,8%. Embora os números pareçam pequenos, especialistas alertam que a carga efetiva sobre o faturamento sobe de forma significativa.
“O governo vende a ideia de que é um ajuste técnico, mas para o empresário o efeito é direto: pagar mais imposto sobre o mesmo faturamento“, explica André Charone, contador tributarista e professor universitário.
Charone destaca que, para muitas empresas, o Lucro Presumido é uma alternativa de sobrevivência.
“Migrar para o Lucro Real exige contabilidade mais complexa e custos elevados de compliance. Ao encarecer o Presumido, o governo empurra pequenas e médias para um modelo que elas não têm condições de arcar. Isso pode significar menos investimentos e até fechamento de postos de trabalho“.
O argumento do governo
O Planalto defende que a medida corrige distorções. Para a equipe econômica, muitas empresas de médio porte se beneficiam de um regime simplificado, pagando menos tributos do que deveriam caso estivessem no Lucro Real. O líder do governo na Câmara afirma que não se trata de penalizar empresários, mas de buscar “justiça fiscal”.
Charone rebate:
“Chamar isso de justiça fiscal é ignorar a realidade das pequenas e médias empresas brasileiras. O problema não é apenas pagar mais, mas a previsibilidade. O empresário planeja seus custos com base em regras que mudam de uma hora para outra. Essa insegurança afasta investimentos e trava a expansão dos negócios“.
Resistência e riscos
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) já manifestou oposição, alegando que a proposta pode reduzir a competitividade das empresas brasileiras. Especialistas em política fiscal avaliam que a medida deve enfrentar resistência no Congresso, mas reconhecem que, diante da pressão para equilibrar as contas públicas, o tema dificilmente será retirado da pauta.
Na avaliação de Charone, o impacto vai além do caixa das empresas:
“Estamos falando do segmento que mais gera empregos no Brasil. Penalizar esse grupo é apostar contra a própria recuperação econômica. O governo deveria olhar para o corte de gastos e para a eficiência da máquina pública antes de escolher esse caminho fácil de aumentar a arrecadação“.
Próximos passos
O projeto aguarda despacho do presidente da Câmara e deve tramitar em comissões antes de ir a plenário. Caso aprovado, entrará em vigor apenas após respeitar os prazos de anterioridade tributária, o que significa que os efeitos só se sentirão a partir de 2026.
Para André Charone, a mensagem que fica é preocupante.
“O governo sinaliza que, para fechar suas contas, está disposto a transferir a conta para quem mantém a economia real em funcionamento. Isso cria um ambiente de desconfiança que, no fim, pode sair muito mais caro para o país do que os R$ 19 bilhões que se pretende arrecadar“.
*André Charone é contador, professor universitário, Mestre em Negócios Internacionais pela Must University (Flórida-EUA), possui MBA em Gestão Financeira, Controladoria e Auditoria pela FGV (São Paulo – Brasil) e certificação internacional pela Universidade de Harvard (Massachusetts-EUA) e Disney Institute (Flórida-EUA).
Artigos
Saúde bucal e estratégia corporativa: por que a nova lei trabalhista é apenas o começo?
Autor: Paulo Zahr* –
A entrada em vigor da Lei nº 15.377/2026, em 6 de abril, marcou um passo significativo para a saúde preventiva no ambiente corporativo brasileiro. Ao instituir a obrigatoriedade de orientação sobre campanhas de vacinação e prevenção ao câncer, o legislador reforçou a premissa de que a saúde do colaborador é o ativo mais valioso de qualquer organização.
No entanto, ao analisar o novo texto legal, notei uma ausência que merece nossa profunda reflexão como líderes e gestores: a saúde bucal.
A ciência é categórica ao afirmar que a boca é a porta de entrada para condições sistêmicas graves. Quando uma empresa ignora a saúde bucal de seus talentos, ela assume riscos que impactam diretamente o balanço financeiro e a produtividade. A doença periodontal está intrinsecamente ligada ao aumento de riscos de Infarto e AVC, enquanto inflamações bucais crônicas descontrolam a glicemia e agravam o diabetes.
Além disso, no Brasil, a dor de dente ainda figura como a segunda maior causa de absenteísmo, provando que negligenciar esse cuidado não é economia, mas sim o adiamento de uma conta que chegará muito mais cara.
Enquanto a legislação estabelece o patamar mínimo, as empresas visionárias já entenderam que o benefício odontológico é estratégia pura. O acesso ao cuidado odontológico qualificado gera um ciclo virtuoso em que o colaborador se sente valorizado em uma necessidade essencial, o engajamento aumenta e a marca empregadora se fortalece na guerra por talentos.
É nesta lacuna entre a necessidade pública e a oferta corporativa que o modelo de franquias odontológicas se tornam um pilar econômico fundamental, permitindo que clínicas estruturadas cheguem aonde a demanda só cresce.
A lei avançou, mas o mercado deve ir além. Se queremos empresas resilientes, precisamos tratar o indivíduo de forma integral, sem fatiar o cuidado preventivo. O futuro da gestão de pessoas exige que abandonemos a visão fragmentada da saúde. Como líderes, não podemos nos contentar apenas com o cumprimento de exigências legais enquanto ignoramos um pilar que afeta diretamente o bem-estar e a performance de nossas equipes.
O verdadeiro diferencial competitivo de uma empresa hoje não está no que ela é obrigada a fazer, mas no cuidado genuíno que ela escolhe oferecer. Convido você a refletir: sua empresa está apenas seguindo a lei ou está, de fato, liderando pelo exemplo ao cuidar da saúde integral de quem faz o negócio acontecer?
*Paulo Zahr é fundador da OdontoCompany, empreendedor e especialista em franquias, com mais de 30 anos de experiência no setor
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