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Solidariedade e sustentabilidade como diferenciais competitivos

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Autor: David Braga

O que se leva da vida é a vida que se leva.

A frase do pensador Antoine de Saint-Exupéry, autor do clássico “O Pequeno Príncipe”, parece ter ganhado relevância maior no cenário atual. No mundo corporativo, empresas e profissionais procuram, cada vez mais, deixar uma marca diferenciada, construir um legado e poder fazer algo além das suas atividades rotineiras, que possa contribuir para um mundo melhor. E, neste ano, em função da pandemia da Covid-19, ficou mais que visível, fora e dentro das organizações, o quanto o espírito colaborativo e de ajuda ao próximo é essencial. Nesse aspecto, a solidariedade ganha destaque, especialmente porque as pessoas vivem em sociedade e dependem sempre umas das outras.

Sendo assim, é importante observar, em primeiro lugar, que estamos falando de um valor humano universal, presente em todas as culturas. Inclusive, a Organização das Nações Unidas (ONU) instituiu, na Assembleia Geral de 2005, o Dia Internacional da Solidariedade Humana, comemorado dezembro. A celebração tem como objetivo destacar a importância da ação coletiva para superar os problemas globais e alcançar as metas mundiais de desenvolvimento, de forma a construir um mundo melhor e mais seguro para todos.

Boa parte das empresas já tem aprimorado essa percepção e incorporado o tema à cultura organizacional. Afinal, se discutimos tanto sobre legado, ser solidário é também pensar nesse viés, uma vez que é importante se sensibilizar com a dor do outro e estender a mão para ajudá-lo de alguma maneira. Ou seja, é ser empático e ter escuta ativa, duas competências e habilidades (soft skills) cada vez mais exigidas, do estagiário ao presidente, dentro das corporações, assim como o espírito colaborativo e cocriativo. Além disso, praticando a solidariedade, todos os envolvidos se apropriam de situações positivas. Quer dizer que quem recebe o apoio é beneficiado, da mesma forma que quem oferece também tem muito a ganhar ao promover o bem-estar do próximo.

Com esse entendimento e após todos os graves impactos provocados pela pandemia à população desde os primeiros meses de 2020, o Terceiro Setor está em ascensão. As companhias perceberam as muitas necessidades da sociedade a partir daquele momento e a importância da colaboração de todos: poder público, iniciativa privada e pessoas físicas para superar a crise. Em todas as esferas, uma nova consciência surgiu. E as pessoas se engajaram em todo tipo de doações, não apenas pela causa, que é de todas as camadas sociais, mas também para ter a consciência tranquila de participar da construção de algo positivo para a sociedade.

Além disso, é importante lembrar que, em termos de carreira, atuar no Terceiro Setor agrega credibilidade ao currículo do profissional, que se mostra socialmente responsável. Quando a solidariedade está presente no dia a dia do indivíduo, a forma como ele enxerga a vida costuma ser diferente. Isso porque entende que tudo e todos estão conectados e cada qual tem uma missão e um propósito no mundo. Ninguém avança sozinho. Ao contrário, sempre precisamos uns dos outros mutuamente.

Dessa forma, independentemente do nível hierárquico ocupado na empresa, o colaborador pode promover ações solidárias genuínas, seja destinando seu tempo livre para apoiar pessoas, seja fornecendo suporte financeiro ou mesmo empreendendo seus conhecimentos técnicos para auxiliar organizações não governamentais (ONGs), por exemplo. De qualquer modo, uma coisa é certa: as empresas estão em constante busca por profissionais sustentáveis, o que vai muito além de tratar apenas do meio ambiente.

Por sua vez, as companhias têm a grande oportunidade de transformar essa corrente de generosidade inédita em algo permanente. Aquelas que não avançarem ainda mais na sustentabilidade – o que significa respeitar os aspectos socioambientais, a diversidade e agora também se mostrarem adeptas da solidariedade – serão cobradas e, dificilmente sobreviverão. Vale lembrar que os resultados de uma instituição não estão mais focados somente nos indicadores financeiros. Buscar a evolução da organização, das pessoas e da sociedade é uma das principais características da liderança sustentável.

David Braga é CEO, board advisor e headhunter da Prime Talent, empresa de busca e seleção de executivos de média e alta gestão, que atua em todos os setores da economia na América Latina, com escritórios em São Paulo e Belo Horizonte.

É também autor do livro “Contratado ou Demitido – só depende de você” e professor convidado da Fundação Dom Cabral (FDC) para matérias de gestão de pessoas. Ele atua, ainda, como embaixador do ChildFund, eleita pelo 4º ano consecutivo entre as 100 melhores ONGs do Brasil, que apoia crianças e adolescentes em extrema vulnerabilidade

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Cinco mil vidas

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Autor: Lúdio Cabral

Cinco mil vidas perdidas. Esse é o triste número que Mato Grosso alcança hoje, dia 26 de janeiro de 2021, em decorrência da pandemia da Covid-19.

Cada um de nós, mato-grossenses, convivemos com a dor pela perda de alguém para essa doença. Todos nós perdemos pessoas conhecidas, amigos ou alguém da nossa família.

A pandemia em Mato Grosso foi mais dolorosa que na maioria dos estados brasileiros e o fato de termos uma população pequena dificulta enxergarmos com clareza a gravidade do que enfrentamos até aqui.

A taxa de mortalidade por Covid-19 na população mato-grossense, de 141,6 mortes por 100 mil habitantes, é a maior entre os estados brasileiros, inferior apenas aos estados do Amazonas (171,9), Rio de Janeiro (166,2) e ao Distrito Federal (147,0). O número de mortes em Mato Grosso foi, proporcionalmente, quase 40% superior ao número de mortes em todo o Brasil. Significa dizer que se o Brasil apresentasse a taxa de mortalidade observada em Mato Grosso, alcançaríamos hoje a marca de 300.000 vidas perdidas para a Covid-19 no país.

Lembram do discurso que ouvimos muito no início da pandemia? De que Mato Grosso tinha uma população pequena, uma densidade populacional baixa, era abençoado pelo clima quente e que, por isso, teríamos poucos casos de Covid-19 entre nós?

Lembram do posicionamento oficial do governador de Mato Grosso no início da pandemia, de que o nosso estado não teria mais do que 4.000 pessoas infectadas pelo novo Coronavírus?

Infelizmente, a realidade desmentiu o negacionismo oficial e oficioso em nosso estado. Não sem muita dor. O sistema estadual de saúde não foi preparado de forma adequada. Os governos negligenciaram a necessidade de isolamento social rigoroso em momentos cruciais e acabaram transmitindo uma mensagem irresponsável à população. O resultado disso tudo foram vidas perdidas.

Ao mesmo tempo, o Mato Grosso do sistema de saúde mal preparado para enfrentar a pandemia foi o estado campeão nacional em crescimento econômico no ano de 2020. Isso às custas de um modelo de desenvolvimento que concentra renda e riqueza, de um sistema tributário injusto que contribui ainda mais com essa concentração, e de um formato de gestão que nega recursos às políticas públicas, em especial ao SUS estadual, já que estamos falando em pandemia.

Dolorosa ironia do destino, um dos municípios símbolo desse modelo de desenvolvimento, Sinop, experimentou mortalidade de até 100% entre os pacientes internados em leitos públicos de UTI para adultos em seu hospital regional.

Nada acontece por acaso. Os números da Covid-19 em Mato Grosso não são produto do acaso ou de mera fatalidade. Os números da Covid-19 em Mato Grosso são produto de decisões governamentais, de escolhas políticas determinadas por interesses econômicos, não apenas agora na pandemia, mas por anos antes dela. E devemos ter consciência disso, do contrário, a história pode se repetir novamente como tragédia.

Temos que ter consciência dessas injustiças estruturais para que possamos lutar e acabar com elas. A dor que sofremos pelas pessoas que perdemos para a pandemia tem que nos mobilizar para essa luta.

Lutar por um modelo de desenvolvimento econômico que produza e distribua riqueza e renda com justiça, que coloque pão na mesa de todo o nosso povo e que proteja a nossa biodiversidade. Lutar por um sistema tributário que não sacrifique os pequenos para manter os privilégios dos muito ricos. Lutar por políticas e serviços públicos de qualidade para todos os mato-grossenses. Lutar pelo SUS, por um sistema público de saúde fortalecido e capaz de cuidar bem de toda a nossa população.

São essas algumas das lições que precisamos aprender e apreender depois de tantos meses de sofrimento e dor, até porque a tempestade ainda vai levar tempo para passar.

Lúdio Cabral é médico sanitarista e deputado estadual pelo Partido dos Trabalhadores em Mato Grosso.

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