Opinião

Seu tédio tem algo a dizer

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Autor: Manoel Vicente de Barros –

Sem sair de casa. Nada a fazer. Senta no sofá, muda de canal, tudo igual, admira a geladeira, belisca, olha o celular, repete. Manhã monótona, fins de tarde arrastados. Domingos intermináveis. O tédio não anda respeitando as regras de distanciamento, é uma companhia inconveniente que insiste em ficar.

Todos conhecemos o desconforto de sentir o tempo se prolongando e a impressão que absolutamente nada de interessante está acontecendo ao seu redor. Preferimos o amargo de uma experiência ruim que o gosto de nada que o tédio tem.

Neuropsicólogos entendem essa sensação como resultado de um ambiente pouco estimulante e a incapacidade de se focar em qualquer atividade significativa. Um estado aversivo e incômodo de querer, mas não conseguir se engajar em coisa alguma.

Ainda bem que o tédio existe.

Ele é uma pista emocional, uma mensagem direta de descontentamento do seu eu. Você se desligou daquilo que te inspira, te motiva e a rota precisa ser ajustada. A enfadonha sensação do repetitivo, de tudo parado, te orienta para novos objetivos, novos rumos.

É no ócio que surge a criatividade. Igualar “não fazer nada” com ser improdutivo é um entendimento limitado de produtividade. Esse tempo de respiro é indispensável a novas idéias, invenções e poesias.

O tédio incentiva o retorno de velhos hábitos, porque você parou de ler seus livros? O exercício não te fazia bem?

Te lembra dos planos não concretizados, daquele curso que você nunca fez, do emprego que era seu sonho.

O tempo livre, porém, incomoda, e corremos para ocupá-lo. O tédio é uma punção poderosa, um sinal de incêndio interno, mas as distrações rasas tapeiam esse fogo e esgotam o combustível da inventividade.

Quando bebês reclamam ou choram, os acalmamos com chupetas, adultos entediados entorpecem seus sentimentos com celulares, verdadeiros bicos eletrônicos.

Essa tentativa de sanar o tédio de formas improdutivas está na base de muitos hábitos adoecedores não só pelos eletrônicos, mas também pelo aumento do consumo de álcool e tabaco, por exemplo. Idas desnecessárias à geladeira que preenchem o estômago, mas não o tempo e compras por impulso que só trazem alegria até você abrir o embrulho.

Todos esses comportamentos acabam por cronificar o sentimento, o que pode ser desencadeante de um quadro depressivo ou ansioso.

Pesquisas apontam adolescentes cada vez mais entediados e crianças que não sabem como brincar sem um estímulo externo. Nunca houve tanto entretenimento, nunca houve tanto tédio.

Entenda ele como a parte difícil antes de começar algo novo ou de atribuir um propósito diferente àquela atividade monótona.

Valorize seu lazer, valorize você. Programe não só sua semana de trabalho, mas seus dias de descanso e crie momentos de desconexão.

Claro, você não precisa, de uma hora para outra, ter um insight incrível. Pode passear, rever aquele amigo da faculdade, cuidar das plantas, gastar em uma viagem sozinho ou apreciar a graça gratuita das nuvens.

Esse vazio entediante só será preenchido com aquilo que te realiza.

Até descobrir o que é isso, aguce os ouvidos e escute o que o tédio tem para dizer.

Manoel Vicente de Barros é Psiquiatra em Cuiabá e atua no tratamento de Depressão e Ansiedade, CRM 8273, RQE 4866.

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Pacientes ou clientes?

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Autor: Manoel Vicente de Barros –

Com a crescente demanda pela humanização dos sistemas de saúde, algumas práticas e termos rotineiros passam a ser analisados sobre uma nova ótica, mais questionadora. Um ponto talvez nunca questionado se tornou fonte de debate: quem usa um serviço de saúde é paciente ou cliente?

Essas duas denominações influenciam como a pessoa será abordada e cuidada, com vantagens e desvantagens.

Nós, médicos, historicamente utilizamos o termo paciente. Essa escolha pode carregar a imagem equivocada de que quem procura uma unidade de saúde deve estar conformado em esperar, aguardar, sendo paciente com qualquer atendimento que venha a receber.

De maneira alguma o vocábulo é o causador dos péssimos serviços públicos e particulares que recebemos, eles são ruins por falta de competência ou recursos, mas é uma triste coincidência cobrar de pacientes que tenham paciência.

A verdade é que bons profissionais enxergam o paciente como alguém momentaneamente fragilizado, que precisa de amparo, em uma visão individualizada e respeitosa.

Em contraposição à paciente, surge a imagem do cliente.

O cliente tem um papel muito mais ativo na relação de cuidado, ele é melhor atendido, afinal, ninguém quer deixar um cliente esperando. Todo estabelecimento quer atender as necessidades dos clientes, pois esse tem escolha de buscar outro prestador de serviço, melhor e mais eficiente.

Essa visão tira da zona de conforto aqueles que não se importam com a qualidade do atendimento, e se você já utilizou serviços de saúde, sabe do que estou falando. Clientes fazem reclamações, exigem, elogiam e participam da construção do serviço que é feito para eles.

O ponto de conflito acontece porque com o paciente as orientações médicas podem, eventualmente, contrariar suas expectativas, mas são para o seu bem. O cliente não pode ser contrariado, ele é um consumidor, o pagador, e no comércio, o cliente tem sempre razão.

Quando pacientes exigem que seja feito um exame ou que seja prescrito um antibiótico, eles estão agindo como clientes exigentes e podem tomar péssimas decisões, pois simplesmente não detém conhecimento em saúde. Nesse momento, a autoridade do carimbo precisa se impor e ser respeitada, goste ou não.

Sua avó sabia que para perceber febre o melhor era colocar a mão sobre a testa e todo paciente é orientado a medir sua temperatura nas axilas. É impossível detectar febre a partir da temperatura das mãos, então lojas, shoppings e locais de trabalho que fazem isso não priorizam sua saúde, eles querem te agradar como a um cliente.

Ao procurar orientação e tratamento existe a chance de ser contrariado, alguns remédios são amargos, mais necessários. Trazer a lógica do comércio e exigir medicamentos e exames como quem vai à padaria certamente te fará mal.

Pacientes merecem respeito, serem ouvidos e bem tratados. Hospitais, clínicas e profissionais precisam atender melhor seus clientes, nós já percebemos isso.

Progressivamente os serviços de qualidade vão ganhando espaço. Seja exigente, mas tome cuidado, pois clientes impacientes correm o risco de receber o que querem ao invés daquilo que realmente precisam.

Manoel Vicente de Barros é Psiquiatra em Cuiabá e atua no tratamento de Depressão e Ansiedade, CRM 8273, RQE 4866.

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