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Safira Dib: – A experiência digital é para todos?

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               A experiência digital é para todos?

Autora: Safira Dib

Nos últimos trinta anos vivemos mais evoluções e avanços tecnológicos do que no último século por inteiro. Em meio a tanto, alguns vivem em um mar de informações diário e um verdadeiro bombardeamento de conteúdos no mundo digital. Com a pandemia causada pelo novo coronavírus, a pauta sobre aprendizagem digital ganhou mais holofotes e discussões sobre suas capacidades, alcances e desafios.

O desafio é que esse verdadeiro turbilhão de informações pode significar exatamente a desinformação, as famosas fake news são um reflexo disso. Na aprendizagem digital, a curadoria de informações e de conhecimento ganha um espaço pontualmente importante e que representa uma das maiores provocações nessa dinâmica. Além da preocupação e cuidado sobre a informação em si, somos visitados por ofertas super fartas de conteúdos, cursos e oportunidades em que a escolha para o consumo se torna um labirinto, muitas vezes, de saída impossível ou bem desgastante.

Possibilidades do aprendizado digital

Uma série de questões nos perseguem aqui: quais os indicativos que norteiam nosso consumo de informações e, mais do que isso, que perguntas precisamos achar, antes das respostas, nesse universo da informação. Em meio a tantas cobranças, como nos libertamos das amarras do utilitarismo? A premissa de que tudo o que se aprende e se consome deve ter um objetivo muito visível a ser aplicado. É quando a gente questiona ainda no ensino médio o motivo de se aprender vetores se nunca mais vai usar isso na vida. O aprendizado digital é um belo convite para entender que nem tudo do que se aprende tem algum fim específico e muito prático determinado — é uma desconstrução à ditadura do propósito, mas que, ao mesmo tempo, honra aqueles conteúdos que precisamos invariavelmente consumir.

Tudo que se aprende é útil de alguma maneira, em alguma etapa ou experiência de vida que ainda não nos foi desvendada. Nos falta viver um processo chamado de infancialização, em que nos colocamos como crianças aprendendo com tudo e todos em nossos universos infinitos. Um ser em constante aprendizado, que tira conhecimento em relação de igualdade com seu meio. A era da informação pode ser um impulso para esse despertar, para estabelecer poli diálogos e potencializar habilidades em fontes tão diversas ou surpreendentes — ou seja, para (re)vivermos a condição de infância quando adultos em tantos meios que visitamos.

Os maiores desafios da educação digital

Há um grande problema, entretanto: esse processo bem bonito não é acessível para todos. O acesso à internet no Brasil, por exemplo, é bastante limitado e nessa construção, apenas 13% das pessoas pertencentes às classes D e E têm computadores em casa. Esse certamente é o desafio mais gritante do aprendizado digital — ele acaba deixando de fora parcelas expressivas da população. Mas ao mesmo tempo, consegue concorrer com preços mais atrativos do que universidades tradicionais, e com horários mais flexíveis, que possibilitam que classes menos favorecidas da pirâmide social encontrem algumas alternativas. Além disso, se pode aprender (muito) com as redes sociais e o YouTube, em grandes porções de conteúdos gratuitos, o que representa oportunidades para algumas camadas, mas ainda marginaliza aquelas que não possuem acessos dos mais variados tipos.

A própria curadoria da informação e a condição autodidata são privilégios propriamente ditos. Não somos programados, em nossos modelos educacionais, a sermos autônomos no aprendizado, fica a condição de que precisamos sempre de um mediador do conhecimento, porque aprendemos que aprender é absorver conteúdos e tomar aquilo como regras.

Acessos e Conexões

As discussões mudam muito sobre aprendizagem digital nesses âmbitos. Para os que têm acesso, levantamos questões do tipo: como manter as pessoas realmente engajadas nos conteúdos, ou como traçar pelo virtual algum tipo de relação entre professor e estudante, até mesmo revisitando o papel do educador em sala. Nos preocupamos com a falta da experiência coletiva e a ausência que as câmeras desligadas parecem trazer. Mas deslocando esse contexto para às margens da sociedade, as questões são pulsantemente outras. Por isso é difícil falar globalmente sobre os benefícios e desafios dos avanços tecnológicos na educação, encontramos diferenças muito cruciais nesses fatores quando encaixamos realidades do Brasil e do mundo.

A aprendizagem digital percorre alguns caminhos de aprofundamento das desigualdades, enquanto também provoca alguns abalos a suas barreiras estruturais. É nesse sentido que precisamos desconstruir a generalização da educação digital. Precisamos de propostas que personalizem soluções e destinos, adequando os públicos. Não estamos no mesmo barco quando falamos de acesso. A tecnologia é um dos instrumentos para que se chegue a espaços mais igualitários, resta que pensemos nas oportunidades a serem evidenciadas e possibilidades a serem despertadas.

Safira Dib, analista de treinamento na Creditas

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Pacientes ou clientes?

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Autor: Manoel Vicente de Barros –

Com a crescente demanda pela humanização dos sistemas de saúde, algumas práticas e termos rotineiros passam a ser analisados sobre uma nova ótica, mais questionadora. Um ponto talvez nunca questionado se tornou fonte de debate: quem usa um serviço de saúde é paciente ou cliente?

Essas duas denominações influenciam como a pessoa será abordada e cuidada, com vantagens e desvantagens.

Nós, médicos, historicamente utilizamos o termo paciente. Essa escolha pode carregar a imagem equivocada de que quem procura uma unidade de saúde deve estar conformado em esperar, aguardar, sendo paciente com qualquer atendimento que venha a receber.

De maneira alguma o vocábulo é o causador dos péssimos serviços públicos e particulares que recebemos, eles são ruins por falta de competência ou recursos, mas é uma triste coincidência cobrar de pacientes que tenham paciência.

A verdade é que bons profissionais enxergam o paciente como alguém momentaneamente fragilizado, que precisa de amparo, em uma visão individualizada e respeitosa.

Em contraposição à paciente, surge a imagem do cliente.

O cliente tem um papel muito mais ativo na relação de cuidado, ele é melhor atendido, afinal, ninguém quer deixar um cliente esperando. Todo estabelecimento quer atender as necessidades dos clientes, pois esse tem escolha de buscar outro prestador de serviço, melhor e mais eficiente.

Essa visão tira da zona de conforto aqueles que não se importam com a qualidade do atendimento, e se você já utilizou serviços de saúde, sabe do que estou falando. Clientes fazem reclamações, exigem, elogiam e participam da construção do serviço que é feito para eles.

O ponto de conflito acontece porque com o paciente as orientações médicas podem, eventualmente, contrariar suas expectativas, mas são para o seu bem. O cliente não pode ser contrariado, ele é um consumidor, o pagador, e no comércio, o cliente tem sempre razão.

Quando pacientes exigem que seja feito um exame ou que seja prescrito um antibiótico, eles estão agindo como clientes exigentes e podem tomar péssimas decisões, pois simplesmente não detém conhecimento em saúde. Nesse momento, a autoridade do carimbo precisa se impor e ser respeitada, goste ou não.

Sua avó sabia que para perceber febre o melhor era colocar a mão sobre a testa e todo paciente é orientado a medir sua temperatura nas axilas. É impossível detectar febre a partir da temperatura das mãos, então lojas, shoppings e locais de trabalho que fazem isso não priorizam sua saúde, eles querem te agradar como a um cliente.

Ao procurar orientação e tratamento existe a chance de ser contrariado, alguns remédios são amargos, mais necessários. Trazer a lógica do comércio e exigir medicamentos e exames como quem vai à padaria certamente te fará mal.

Pacientes merecem respeito, serem ouvidos e bem tratados. Hospitais, clínicas e profissionais precisam atender melhor seus clientes, nós já percebemos isso.

Progressivamente os serviços de qualidade vão ganhando espaço. Seja exigente, mas tome cuidado, pois clientes impacientes correm o risco de receber o que querem ao invés daquilo que realmente precisam.

Manoel Vicente de Barros é Psiquiatra em Cuiabá e atua no tratamento de Depressão e Ansiedade, CRM 8273, RQE 4866.

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