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Quem ensinará o caminho?

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Autor: PAULO WAGNER*

Quem dirá ao passarinho que constrói o ninho que a chuva não virá este ano, trazendo frutos e insetos para alimentar os filhotes que eclodirão de pequenos ovos azuis?

Quem ensinará as abelhas desnorteadas pelos agrotóxicos o caminho da colmeia, antes que se faça noite e frio, antes que o sol deixe de apontar o caminho de casa?

Quem dirá aos peixes que o rio secou e que eles se estatelarão nas pedras se quiserem subir a antiga corredeira, para desovar nas cabeceiras os peixes do amanhã?

Quem dirá aos animais e árvores da floresta que apenas um tipo de animal e planta ocupará a terra. E que a casa deles em breve será desmatada e consumida pelo fogo, gerando uma chuva escura que caiará sobre as grandes cidades?

Quem avisará as tartarugas e aves marinhas que uma mancha imensa está chegando para cobrir seus corpos e penas com petróleo cru? Quem dirá as crianças que as baleias e golfinhos encalharam e morreram na praia, empachados e sufocados pelos plásticos que invadiram os oceanos?

Quem evitará que o carbono que levou bilhões de anos para ser retirado da natureza, possibilitando o surgimento da vida, pare de ser lançado no ar pelas chaminés das fábricas e pelos veículos que percorrem a superfície e o céu do planeta?

Quem evitará que uma nova barragem se rompa, arrastando casas, vidas e a beleza de um rio doce para a desolação? Quem garantirá que a índia crie em paz seu curumim, quem afastará daqui o coisa ruim?

Quem evitará tanto desmatamento, extermínio de indígenas, tanto garimpo ilegal? A passagem da boiada, a milícia do contrabando autorizada, a febre do ouro, a face do mal?

Quem pagará o preço do negacionismo climático, do aquecimento global, da catástrofe anunciada, da seca prolongada e da inundação, do impacto deixado pelo lucro fácil e pela barbárie da civilização?

Quem pagará a conta de tanta destruição, o futuro sustentável roubado da nova geração? Quem convencerá as crianças que o mundo maravilhoso da natureza existiu um dia de verdade, além da tela dos celulares e tabletes, mas foi consumido pela ganância de alguns homens que pensavam que o planeta era só deles.

Quem ensinará o caminho de um Planeta para Todos?

*PAULO WAGNER é Professor, Jornalista e Mestre em Estudos de Linguagem e Literatura.

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Para além do juramento de Hipócrates: a ética na prática médica

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Autor: Ermelino Franco Becker*

Passarei a minha vida e praticarei a minha arte pura e santamente. Em quantas casas entrar, fá-lo-ei só para a utilidade dos doentes, abstendo-me de todo o mal voluntário e de toda voluntária maleficência e de qualquer outra ação corruptora, tanto em relação a mulheres quanto a jovens.” (Juramento de Hipócrates).

O nauseante episódio do anestesista contra uma paciente vulnerável reuniu a totalidade da reprovação possível entre médicos, trabalhadores da saúde, operadores do direito e todo o resto da nação. Como pode um profissional de tão nobre carreira transgredir tão ostensivamente qualquer tipo de razoabilidade comportamental? Como é possível que tal pessoa tivesse a confiança dos colegas e da instituição para lá estar trabalhando?

Como professor e cirurgião, também me surpreende como uma pessoa com tal desvio de caráter conseguiu terminar o seu curso e receber um diploma de médico. E, mais ainda, completar um curso de residência, período em que os jovens estão expostos ao escrutínio estreito dos mestres, sendo exigidos nos limites da resistência pessoal em plantões noturnos, casos complexos, estudos extensos e, portanto, sendo testados seguidamente em seus limites emocionais e comportamentais.

É preciso lembrar que toda profissão da saúde tem essa natureza que franqueia aos médicos acesso à intimidade dos pacientes, incluídas aí a intimidade física, psicológica, familiar e até financeira. Tal exposição exige retidão de conduta absoluta por parte do médico e equipe, respeitando os princípios da bioética, quais sejam a beneficência, a não maleficência, a autonomia e a justiça. Frutos desses princípios se seguem temas práticos da formação dos alunos, como o sigilo, a omissão de socorro, o consentimento, o respeito à terminalidade e muitos outros. Ainda mais exigente é o respeito à sexualidade. Se o médico não se conduzir em discrição obstinada nesse assunto, fica inviabilizado o acesso dos pacientes aos tratamentos, pelo receio de, estando vulneráveis, serem vitimados por aqueles que seriam seus protetores.

Os mecanismos de controle de tais condutas abusivas não podem se resumir às delegacias e aos conselhos de medicina com seus processos formais e muitas vezes sujeitos a recursos que criam obstáculos. A comunidade profissional em cada ambiente de trabalho tem papel insubstituível e não pode se eximir de continuamente estar observando o profissional ao seu lado, no melhor sentido da proteção dos doentes. Tal responsabilidade precisa ser semeada em cada aluno de graduação durante o curso, esclarecendo-os sobre as razões históricas e formais do comportamento profissional. Acima de tudo, é necessário que eles compreendam seu papel social na proteção dos pacientes vulneráveis, incluindo crianças, idosos, inconscientes e até as pessoas de educação mais simples.

Desafios modernos para atingir tal formação passam pelos novos formatos das universidades, com grande número de alunos por turma, aulas a distância, e avaliações em provas objetivas, com poucas oportunidades de se acompanhar os alunos de maneira individualizada. A medicina é uma arte que se aprende de muitas fontes, mas todo aluno deveria ter um tutor ou equivalente, que lhe inspire e molde sua personalidade no sentido ético profissional, de modo a preservar o respeito que a profissão merece, sem banalizações e sem tolerância para as condutas abusivas.

*Ermelino Franco Becker é médico cirurgião oncologista, médico legista no IML de Curitiba e professor de Bioética e Ética Profissional do curso de Medicina da Universidade Positivo (UP).

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