ARTIGO

O Pantanal dos Guardiães

Publicados

em

 

Autor: Onofre Ribeiro

Desde o começo dos incêndios no Pantanal no ano passado, venho escrevendo, visitando, conversando e levantando dados a respeito da região e da sua História. Fora o conhecimento pessoal iniciado lá em 1976, ano de grande enchente na região toda. Recordo o sobrevôo num avião monomotor de asa alta, junto com o médico veterinário da Secretaria de Agricultura, Luis Carlos Victorino, e mais dois técnicos, avaliando o saldo da enchente. Recordo-me de ver pessoas empoleiradas nas árvores ou nos tetos das casas ilhados pela água alta. Ou de ver o gado com água no peito. E as vacas com as tetas devoradas por piranhas. Acompanhei parte do resgate por barcos da Marinha, sediados em Ladário, vizinha a Corumbá. Os socorridos eram levados pra Fazenda São João, da polêmica construtora Camargo Correa. Vi outras fortes enchentes, como a de 1995. Uma enormidade de água porque choveu muito.

Em 2020, ápice de anos sem chuvas normais, a secura no Pantanal abriu campo pros incêndios. Mas, por detrás, tem uma série de contradições anteriores. A proibição de conservação das pastagens, através de uma lei estadual que seria regulamentada por decreto posteriormente. Depois as teses acadêmicas contratadas no começo da década de 2000 pelo SESC Pantanal, um órgão público que criou no Pantanal uma área superior a 140 mil hectares de antigas fazendas compradas pra se fazer uma reserva ambiental particular. O SESC quis legitimar a transformação de uma parte do Pantanal em área de absoluta conservação ambiental. Porém, houve muitas contradições negativas. Mas depois da crise dos incêndios surgiram vários fatos novos, assinalados abaixo:

1 – Na semana que passou o governo de Mato Grosso assinou um decreto que permite os manejos das pastagens e tudo o mais historicamente da cultura pantaneira, Enfim regulamentou aquela lei;

2 – no auge da crise, os fazendeiros decidiram agrupar forças políticas e criaram um grupo chamado Guardiães do Pantanal, como a sua voz política, econômica e representativa. Logo, não se repetiriam mais tantas contradições, porque enfrentariam o contraponto organizado da cultura social e econômica do Pantanal

3 – a crise toda serviu como lição pra organização regional, pra necessidade de novos programas de modernidade tecnológica e pra reposição ambiental da grande área mais preservada de Mato Grosso, ao contrário do que foi amplamente divulgado pela influência da oposição acadêmica;

4 – por último, o governo de Mato Grosso contratou departamento ambiental da UFMT pra fazer pesquisas no Pantanal. Certamente o espírito ideológico não mudou. Mas haverá a oposição dos Guardiães do Pantanal, caso as pesquisas saiam da rota científica e mirem em rota política.

A conclusão é de que o mal está virando uma oportunidade pro Pantanal se reposicionar dentro do espaço que construiu ao longo de mais de 300 anos de História.

Onofre Ribeiro é jornalista em Mato Grosso

[email protected]
www.onofreribeiro.com.br

COMENTE ABAIXO:
Leia Também:  Benedito Figueiredo Junior: - Não é tão simples quanto parece
Propaganda

Artigos

Mulher Maravilha, Eu?

Publicados

em

 

Autora: Janaína Riva –

Estamos no mês da Mulher e, este ano, eu achei necessário escrever sobre uma das perguntas que ao longo da minha vida pública mais tenho recebido: mas Janaina, como você dá conta de tudo isso? Casa, marido, três filhos, uma agenda cheia e ainda ser tão atuante na vida parlamentar? E a resposta é simples: não sou Mulher Maravilha, não. Como qualquer outra mulher que trabalha fora, vivo tentando me equilibrar entre uma coisa e outra, muitas vezes com a consciência pesada por não conseguir fazer tarefa com meus filhos ou dar mais atenção à minha família como gostaria. Por outro lado, quando estou com eles, penso nos municípios que deixei de visitar, eventos que não consegui participar ou telefonemas que não consegui atender para poder estar com a minha família.

Diante de tudo isso, achei pertinente propor uma reflexão sobre a necessidade de desconstrução da síndrome da Mulher Maravilha que a cada dia nos afeta mais. Que nós assumimos uma variedade enorme de tarefas e nos cobramos a dar conta de tudo, já sabemos. Porém, parece que ainda não percebemos o alto preço emocional e físico que pagamos por carregar conosco essa síndrome da Mulher Maravilha.

Culturalmente, nós mulheres, crescemos sendo doutrinadas para dar conta de tudo. Isso inclui ser uma excelente profissional e gerar uma boa renda, ser uma ótima mãe, educar os filhos corretamente e ter tempo para eles, ser uma “boa esposa” e manter acesa a chama da relação, cuidar ou administrar a casa, manter um corpo incrível, ter o cabelo e as unhas impecáveis, ter uma vida social ativa, dentre outras funções que a sociedade coloca sobre nossas costas. Porém, sem medo de errar, posso afirmar que não há saúde mental que se sustente com tudo isso.

Sempre associamos a figura da Mulher Maravilha ao empoderamento feminino, mas o lado negativo de tentarmos ser super-heroínas fora dos quadrinhos e dar conta de tudo o tempo todo, é a sobrecarga física e emocional que isso traz. Precisamos ter mais compaixão por nós mesmas, fazer o que é possível e não o impossível, e deixar de lado o perfeccionismo para sermos felizes.

A luta pela equidade de gênero nos sobrecarrega e nos força a essa tentativa sobre-humana de perfeição. É chegada a hora de não nos martirizarmos por não dar conta de tudo o tempo todo ou quando nossos resultados não forem acima da média. Celebrar a vida com as suas imperfeições, já é um ótimo começo pois não nascemos para ser a Mulher Maravilha, mas sim humanas.

Janaína Riva é bacharel em Direito, deputada estadual em seu segundo mandato e a parlamentar mais votada ao Legislativo estadual Mato Grosso na última eleição

COMENTE ABAIXO:
Leia Também:  Patrícia Lisboa: - A liderança feminina e seus potenciais
Continue lendo

MAIS LIDAS DA SEMANA