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Maria Augusta Ribeiro: – Estamos perdendo a habilidade de nos tocar com o digital 

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  Estamos perdendo a habilidade de nos tocar com o digital

Por: Maria Augusta Ribeiro –  

O toque não é para todo mundo. Mas o uso desenfreado de nossos computadores, tablets e smartphones, está afetando a capacidade dos mais jovens de reconhecimento tátil além das telas azuis.

Nós tocamos as pessoas para demonstrar afeição, compaixão, compreensão, interesse, segurança, e um monte de outros sentimentos que são potencializados pelo toque. Porém, quando a importância desse toque passa desapercebida, e o único contato que as pessoas têm é uma tela azul, isso reflete no comportamento da sociedade como um todo.

Atualmente, é  comum  ver crianças que  ao folhear um livro, passem o dedinho, tentado alterar a página, achando que é uma tela touchscreem. Ou jovens que não se sintam a vontade com o toque dos colegas e prefiram a comunicação via Whatsapp, mesmo que estejam lado a lado.

Pode parecer exagero para muita gente que amadureceu construindo suas capacidades cognitivas brincando na rua e fechando negócios com apertos de mão. Mas o toque, para os que já nasceram digitalizados, tem se tornado obsoleto, o que pode afetar construções importantes para o desenvolvimento de uma pessoa.

Não é surpresa para ninguém que, mesmo conectados à internet, estamos mais egoístas, preguiçosos e desleixados, já que o Facebook avisa do aniversário do melhor amigo, o Tinder arruma uma phoda rápida, e o Whatsapp pode fazer com que você se comunique com qualquer um.

Tecnologia não é ruim. O que é péssimo é como não estamos prestando atenção aos impactos causados pelo uso cotidiano de ferramentas que deveriam melhorar nossa conectividade, mas está afetando sobremaneira a vida dos mais jovens.

Sim! Somos culpados porque nossos filhos de 4 anos não sabem folhear um livro, não se sentem a vontade quando são abraçados em público, e não conseguem comer sem a ajuda da foto do prato de comida no Instagram.

Estar conectado como sociedade está fazendo com que nosso comportamento seja uma evolução mais para o ruim do que para o bem. E, como somos uma nação afetiva e que toca as pessoas, podemos estar informando às novas gerações que o tocar alguém é obsoleto.

A internet é ótima. E nao é proibindo seu uso que vamos evoluir como sociedade. Nem mesmo podemos culpar a tecnologia por uma atividade que deveria ser nossa.

Imagine que, daqui 5 anos, nossos jovens de 11 anos não saibam mais o que é intimidade, construção de relações e ações de contato, porque hoje acreditamos que dar um smartphone de última geração a uma criança é melhor do que compartilhar experiências.

Estamos dando um recado cruel para as gerações mais novas. Estamos dizendo com nosso comportamento digital que apenas o que acontece atreva das telas de nossos smartphones é o que importa. E isso faz com que estejamos preparando pessoas para um amanha com muitos problemas nas relações humanas

Tudo que nos vemos em ambiente digital como comportamento, com certeza acontece em outro lugar físico. Portanto, se desejamos transformação pelo digital, devemos estar conectados uns aos outros  pela internet mas primeiro pelo toque, e não somente por uma interface azul brilhante que para gerar interações não precisa de pessoas do outro lado para isso acontecer. Pense Nisso!

Maria Augusta Ribeiro. Profissional da informação, especialista em Netnografia, escreve para o Belicosa.com.br.

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Estamos todos saindo da UTI?

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Autor: Jarbas da Silva Motta Junior –

Há 13 anos, passo um grande pedaço do meu dia em um ambiente que, infelizmente, passou a fazer parte da história de muitas famílias a partir do ano passado: a Unidade de Terapia Intensiva. Talvez os significados das palavras desse nome nunca fizeram tanto sentido. Unidade de profissionais que não fazem nada sozinhos, que precisam uns dos outros tanto para as ações “operacionais” como para virar um paciente de bruços ou para discutir os procedimentos cada vez mais multidisciplinares. Terapia atualizada e individualizada com uma rapidez jamais vista, graças à agilidade e ao esforço da ciência. E intensiva em todos os detalhes.

Nas últimas semanas, esses ambientes estão diferentes do que vivenciamos ao longo de quase 20 meses. Vemos as altas de pacientes sem que seus leitos sejam imediatamente ocupados por outros e novos – e em determinado momento da pandemia, literalmente, cada vez mais novos – pacientes. Em alguns dias, deixamos inclusive de ter casos ativos de Covid-19. Isso significa que, pela primeira vez, em mais de 500 dias, não havia pacientes com potencial de transmissão da doença. Para os profissionais de saúde esse é um marco que nos emociona e enche de esperança.

Ao olhar os leitos vazios, não podemos nos esquecer da trajetória até aqui. Uma realidade que nem os mais experientes profissionais estavam preparados. Foram dias em que precisamos encarar como principal desafio manter o paciente vivo para que o próprio corpo pudesse ter forças para combater o Coronavírus. E, para isso, recorremos a procedimentos complexos. Em algumas instituições, o uso da ECMO, por exemplo, chegou a ser nove vezes mais frequente do que antes da pandemia. O aparelho que funciona como coração e pulmão artificial representou novos suspiros para muitos homens e mulheres. Já as diálises, ainda no leito de UTI, cresceram quase 60%.

O médico intensivista reconhece o seu papel como divisor de águas no tratamento de um paciente. A entrada dele em ação deve ser precisa no momento em que o quadro do paciente se agrava e que pode ser irreversível sem esse suporte. E assim, também ser o momento da saída. Mas talvez essa definição nunca foi tão nebulosa quanto na Covid-19. Como doença sistêmica e imprevisível, em cada paciente ela agia de uma forma. E foi a união entre assistência e pesquisa que nos deu o suporte para seguir.

Em muitos momentos, tivemos que lutar com os braços que tínhamos. E eles eram escassos de norte a sul do Brasil. Apenas 1,6% dos médicos brasileiros registrados são intensivistas. A Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib) estima que o país precisaria ter, pelo menos, cinco vezes mais profissionais da área para atender toda a demanda de leitos de UTI. A matemática deixa claro o cansaço, mas as súplicas para voltar da intubação escancaram o peso que esses braços carregaram.

No início, observamos como a doença se comportava e compartilhamos conhecimento com o mundo. Agora, experimentamos os resultados desse movimento, que passa a ser coletivo. Vacinas em tempo recorde, adesão da população e a esperança de volta.

As ligações para as famílias e as longas semanas – até meses – de internamento nos aproximaram de cada um que venceu ou perdeu essa luta. Lidamos como uma tragédia social e humanitária e, apesar de acreditarem que somos heróis, sairemos dela mais humanos.

Jarbas da Silva Motta Junior, médico intensivista e coordenador da UTI do Hospital Marcelino Champagnat

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