OPINIÃO

Marcelo Abreu Ducroquet: – A corrida para a vacina: quando os riscos valem a pena?

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 A corrida para a vacina: quando os riscos valem a pena?

Autor: Marcelo Abreu Ducroquet

Há uma corrida mundial para o desenvolvimento de uma vacina contra a Covid-19, na qual os competidores são a Rússia, os EUA, a China e o Reino Unido.

A China aposta em uma vacina composta de fragmentos de vírus, método bastante conhecido, que tem como ponto forte a existência de décadas de experiência e, como desvantagem, a necessidade de produzir o vírus vivo em laboratórios de segurança máxima e em quantidades colossais. Nunca tivemos que produzir tantas vacinas em tão pouco tempo. Os insumos necessários precisarão ser produzidos em uma escala inédita, os recursos humanos necessários precisarão ser recrutados e treinados, instalações precisarão ser construídas. Rússia, EUA e Reino Unido têm outra estratégia: apostam na introdução de material genético com a receita das proteínas virais no corpo humano e as fábricas celulares se encarregam de produzir a vacina. É como se uma confeitaria muito atarefada parasse de vender bolos aos clientes e passasse a mandar cópias das receitas para que cada um fizesse seu próprio bolo em casa. A vantagem é que a produção e distribuição são rápidas. A desvantagem é que isso nunca foi feito nessas condições e nessa escala: estamos em território desconhecido.

Além das questões de escala, temos a questão do prazo. A vacina contra a caxumba foi a de desenvolvimento mais rápido até hoje. O médico americano Maurice Hilleman liderou a pesquisa, que começou em 1963 e terminou em 1967. Era outra doença, outra época, outros recursos e uma ética de pesquisa diferente da atual. Hoje, nos propomos a desenvolver a vacina contra o coronavírus em menos de um ano. O que pode dar errado? Menos tempo significa queimar algumas etapas. Por exemplo: a vacina seria eficaz por dois anos? Não podemos responder essa pergunta acompanhando pacientes por apenas um ano. Se houver efeitos colaterais tardios também não saberemos até que os pacientes tenham sido acompanhados por um período razoável de tempo. Imagine que a vacina cause problemas sérios em 1 em cada 10.000 pessoas. É pouco, pouquíssimo até. Mas se a intenção é vacinar um bilhão de pessoas, 100.000 sofreriam desses efeitos colaterais.

Em 1976 houve um surto de influenza em um quartel na Filadélfia, conhecido como Fort Dix. Um soldado morreu e 200 ficaram gravemente doentes. O presidente dos EUA, na época, iniciou uma campanha de vacinação em massa que atingiu 40 milhões de pessoas. Nos meses seguintes, 94 desenvolveram uma doença que afeta os nervos e leva à paralisia. Essa doença é chamada de síndrome de Guillain Barré e está relacionada à vacina: os casos em vacinados foram 4 vezes mais frequentes do que na população geral. Alguns casos seriam aceitáveis se a vacina tivesse salvado milhares de vidas.

Não foi o que aconteceu: naquele ano, a quarentena foi muito eficiente e o vírus nunca saiu do quartel. Não houve casos além dos 200 iniciais. Foi um vexame histórico que abala a confiança dos americanos nas vacinas até hoje: os americanos têm percentuais de cobertura vacinal muito inferiores aos obtidos no Brasil e em países europeus.

Se em 1976 o vírus ficou preso no quartel, hoje vivemos o oposto. Até outubro de 2020, o novo coronavírus já atingiu 40 milhões de pessoas no mundo inteiro, matando 1 milhão delas. Os 90 casos de paralisia seriam um pequeno preço a se pagar no contexto atual. Acompanhe essa analogia: os acidentes de trânsito matam 1 milhão de pessoas ao ano no mundo todo. Sabemos que a direção imprudente e a alta velocidade aumentam o risco de acidentes e, por isso, dirigir a 100 quilômetros por hora furando sinais vermelhos é proibido. Mas quando uma pessoa sofre um infarto, uma ambulância vem para transportar esse paciente ao hospital, ela trafega em alta velocidade e desrespeita todas as leis de trânsito. Fazem isso porque o risco aumentado de acidentes no trajeto é compensado pelo benefício de chegar antes ao hospital. A imprudência é permitida pelo benefício que pode trazer. Em 2020, somos todos nós nessa ambulância. Sabemos que correr com vacina tem riscos, mas precisamos chegar rápido ao hospital.

Marcelo Abreu Ducroquet, é infectologista e professor do curso de Medicina da Universidade Positivo.

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Cinco mil vidas

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Autor: Lúdio Cabral

Cinco mil vidas perdidas. Esse é o triste número que Mato Grosso alcança hoje, dia 26 de janeiro de 2021, em decorrência da pandemia da Covid-19.

Cada um de nós, mato-grossenses, convivemos com a dor pela perda de alguém para essa doença. Todos nós perdemos pessoas conhecidas, amigos ou alguém da nossa família.

A pandemia em Mato Grosso foi mais dolorosa que na maioria dos estados brasileiros e o fato de termos uma população pequena dificulta enxergarmos com clareza a gravidade do que enfrentamos até aqui.

A taxa de mortalidade por Covid-19 na população mato-grossense, de 141,6 mortes por 100 mil habitantes, é a maior entre os estados brasileiros, inferior apenas aos estados do Amazonas (171,9), Rio de Janeiro (166,2) e ao Distrito Federal (147,0). O número de mortes em Mato Grosso foi, proporcionalmente, quase 40% superior ao número de mortes em todo o Brasil. Significa dizer que se o Brasil apresentasse a taxa de mortalidade observada em Mato Grosso, alcançaríamos hoje a marca de 300.000 vidas perdidas para a Covid-19 no país.

Lembram do discurso que ouvimos muito no início da pandemia? De que Mato Grosso tinha uma população pequena, uma densidade populacional baixa, era abençoado pelo clima quente e que, por isso, teríamos poucos casos de Covid-19 entre nós?

Lembram do posicionamento oficial do governador de Mato Grosso no início da pandemia, de que o nosso estado não teria mais do que 4.000 pessoas infectadas pelo novo Coronavírus?

Infelizmente, a realidade desmentiu o negacionismo oficial e oficioso em nosso estado. Não sem muita dor. O sistema estadual de saúde não foi preparado de forma adequada. Os governos negligenciaram a necessidade de isolamento social rigoroso em momentos cruciais e acabaram transmitindo uma mensagem irresponsável à população. O resultado disso tudo foram vidas perdidas.

Ao mesmo tempo, o Mato Grosso do sistema de saúde mal preparado para enfrentar a pandemia foi o estado campeão nacional em crescimento econômico no ano de 2020. Isso às custas de um modelo de desenvolvimento que concentra renda e riqueza, de um sistema tributário injusto que contribui ainda mais com essa concentração, e de um formato de gestão que nega recursos às políticas públicas, em especial ao SUS estadual, já que estamos falando em pandemia.

Dolorosa ironia do destino, um dos municípios símbolo desse modelo de desenvolvimento, Sinop, experimentou mortalidade de até 100% entre os pacientes internados em leitos públicos de UTI para adultos em seu hospital regional.

Nada acontece por acaso. Os números da Covid-19 em Mato Grosso não são produto do acaso ou de mera fatalidade. Os números da Covid-19 em Mato Grosso são produto de decisões governamentais, de escolhas políticas determinadas por interesses econômicos, não apenas agora na pandemia, mas por anos antes dela. E devemos ter consciência disso, do contrário, a história pode se repetir novamente como tragédia.

Temos que ter consciência dessas injustiças estruturais para que possamos lutar e acabar com elas. A dor que sofremos pelas pessoas que perdemos para a pandemia tem que nos mobilizar para essa luta.

Lutar por um modelo de desenvolvimento econômico que produza e distribua riqueza e renda com justiça, que coloque pão na mesa de todo o nosso povo e que proteja a nossa biodiversidade. Lutar por um sistema tributário que não sacrifique os pequenos para manter os privilégios dos muito ricos. Lutar por políticas e serviços públicos de qualidade para todos os mato-grossenses. Lutar pelo SUS, por um sistema público de saúde fortalecido e capaz de cuidar bem de toda a nossa população.

São essas algumas das lições que precisamos aprender e apreender depois de tantos meses de sofrimento e dor, até porque a tempestade ainda vai levar tempo para passar.

Lúdio Cabral é médico sanitarista e deputado estadual pelo Partido dos Trabalhadores em Mato Grosso.

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