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Eu sempre soube que tinha algo errado

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Autora: Laura Nabuco –

Não fazia muito tempo que eu tinha entrado no mercado de trabalho e já me questionava. Lembro de uma noite, depois de um dia inteiro na redação, ter comentado com meu marido — que não é do ramo — que eu não sabia qual a importância de escrever e publicar aquilo que estava escrevendo e publicando.

Eu era recém-formada ou ainda não, não tenho certeza. Mas era meu primeiro emprego. Um site de notícias super especializado. Escrevíamos apenas sobre política mato-grossense.

Em geral, as matérias tratavam de decisões dos políticos, a maior parte delas tendo absolutamente nada a ver com a população que eles “governam”. Trocas de partidos, reuniões para decidir coisas que nunca seriam realmente feitas, aprovações de projeto de leis que não serviam para nada, brigas, picuinhas, fofocas.

Tudo envolto num manto de suposta importância e seriedade, afinal, é política e as pessoas deveriam se interessar por ela, saber o que acontece, porque é ela que define a sociedade em que vivemos.

Bom, foi nisso que eu decidi acreditar.

Os anos passaram e eu “cresci” no ofício de jornalista. Passei de estagiária para repórter e de repórter para editora numa velocidade recorde, mas acho que isso é história para outro texto.

Troquei de emprego. Várias e várias vezes — algumas delas voltando para empresas e cargos os quais eu mesma havia pedido para deixar. Mas sempre fazendo a mesma coisa: escrevendo sobre fatos políticos que tinham nenhuma importância prática na “vida real”.

E embora aquele questionamento, lá do início da carreira, volta e meia rondasse minha mente, era cômodo. Eu trabalhava muito — cheguei a ser diagnosticada com a Síndrome de Burnout (mais um assunto para, quem sabe, outro texto) –, mas ganhava relativamente bem e ocupava um status, até certo ponto, invejado por alguns colegas. Era reconhecida no meio.

Hoje, cerca de 10 anos depois, sei que estava certa desde o início: aquilo não era, nem de longe, jornalismo e não importava para ninguém, além das pessoas que eram retratadas naqueles textos.

Não sei exatamente o que me fez enxergar isso com clareza. Talvez a convivência com grandes e bons jornalistas da “velha guarda”. Mas conheço outros — da minha geração e uma depois dela — que também conviveram com eles e não parecem estar vendo o que eu vejo. Pode ser comodismo, quem sou eu para criticar?!

Mas, o que é jornalismo então?

Não sou das jornalistas mais antigas no mercado. Conheço muita gente que viu muito mais transformações que eu. Nem posso dizer que comecei na profissão numa “era pré-digital”, afinal, meu primeiro emprego foi num site, mas as coisas eram bem diferentes.

Mesmo no meu trabalho da época — retratar picuinhas políticas — ainda era fundamental, no mínimo, telefonar para a “fonte” e pedir que ela contasse o que aconteceu. E, depois, ligar para o “outro lado” envolvido naquela questão para escutar sua versão do ocorrido.

Com o passar dos anos, fui percebendo que até isso é o básico do básico. Se a intenção é, de fato, informar a sociedade sobre algo, não basta só retratar duas versões de algo. É preciso contexto.

Dizer que determinado projeto de lei foi aprovado não significa nada, se você — jornalista — não explica ao seu leitor o que muda (ou não) na vida dele depois dessa aprovação. Assim como não significa muita coisa manchetar a afirmação de que uma obra pública será feita (ou não) e que custará x milhões de reais, sem dizer qual o impacto disso em termos práticos na vida de pessoas “normais”. Pessoas que, aliás, podem nem conseguir imaginar a quantia de x milhões de reais.

O contexto faz o jornalismo e é exatamente o que nós, jornalistas, estamos deixando de lado há anos. À medida em que a tecnologia avança e as sugestões de pautas se transformam em “textos prontos para publicação” e as entrevistas, em conversas por celular e, depois, em perguntas respondidas no WhatsApp, não contextualizamos mais nada.

No lugar de informar, “emburrecemos” nossos leitores.

Vou dar um exemplo prático. Dia desses, chegou à redação na qual trabalho atualmente um release com dados sobre a abertura de novas empresas em Mato Grosso ao longo de 2020.

A primeira vista, dados animadores. Só no segundo quadrimestre do ano, haviam se iniciado 22 mil novos negócios no Estado. Esse número representava um crescimento de 10% na quantidade de empresas abertas em Mato Grosso.

Mas dentro de um contexto de pandemia e crise econômica que causou desemprego, “algo de errado não estava certo”.

O mesmo release afirmava que entre as atividades desses novos “empreendedores” as que mais se destacavam eram vendas, seguida do ramo da estética. Ou seja, mais de 11 mil pessoas que “viraram empresários” eram cabeleireiros, manicures e pedicures.

Contexto: o setor de serviço — e os salões de beleza estão nesse nicho de mercado — está na lista dos afetados pelas medidas de isolamento social necessárias durante a pandemia. Logo, esses cabeleireiros, manicures e pedicures não são empresários, são pessoas desempregadas que se viram obrigadas a empreender num negócio próprio para tentar manter alguma renda.

Portanto, só citar os números não é jornalismo. Não é informação.

E esse é um exemplo prático que até o mais acomodado de todos os jornalistas deveria perceber. É preciso ser um extraterrestre e ter caído na Terra há poucos dias para não enxergar o contexto por trás desses dados. Nossa rotina nas redações está repleta de outros casos não tão óbvios assim.

Nós desistimos do jornalismo?

Por que, então, paramos de perguntar? Por que paramos de ouvir quem tem mais conhecimento sobre aquele tema sobre o qual vamos escrever? Por que continuamos fazendo algo que está tão claro para todos nós que está errado?

Quando iniciei a carreira, eu sabia que algo precisava mudar, mas não tinha a experiência necessária para apontar o que. Além disso, precisava me enquadrar num mercado de trabalho que, até certo ponto, exigia aquele “padrão” de jornalismo.

Hoje, tenho mais convicção de que essa mudança é ainda mais necessária. E, infelizmente, de que é cada vez mais difícil praticá-la. Uma constatação que me faz pensar em largar a redação, migrar para a área acadêmica ou da comunicação empresarial (coisa que acho que vou mesmo tentar).

Mas, enquanto esse dia não chega, quero continuar sendo uma voz que clama por boas práticas no jornalismo.

O mercado, de fato, impõe um ritmo desumano, industrial. E como já li em um texto publicado no Medium, o leitor parece não se interessar mais pelo “jornalismo à moda antiga”, com textos gigantescos cheio de dados e entrevistas quilométricas. Temos que fazer diferente. Mas ainda é possível — e preciso — resgatar a essência. Estar inconformado é o começo.

Laura Nabuco Branco – Jornalista, editora-chefe do site O LIVRE

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Pacientes ou clientes?

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Autor: Manoel Vicente de Barros –

Com a crescente demanda pela humanização dos sistemas de saúde, algumas práticas e termos rotineiros passam a ser analisados sobre uma nova ótica, mais questionadora. Um ponto talvez nunca questionado se tornou fonte de debate: quem usa um serviço de saúde é paciente ou cliente?

Essas duas denominações influenciam como a pessoa será abordada e cuidada, com vantagens e desvantagens.

Nós, médicos, historicamente utilizamos o termo paciente. Essa escolha pode carregar a imagem equivocada de que quem procura uma unidade de saúde deve estar conformado em esperar, aguardar, sendo paciente com qualquer atendimento que venha a receber.

De maneira alguma o vocábulo é o causador dos péssimos serviços públicos e particulares que recebemos, eles são ruins por falta de competência ou recursos, mas é uma triste coincidência cobrar de pacientes que tenham paciência.

A verdade é que bons profissionais enxergam o paciente como alguém momentaneamente fragilizado, que precisa de amparo, em uma visão individualizada e respeitosa.

Em contraposição à paciente, surge a imagem do cliente.

O cliente tem um papel muito mais ativo na relação de cuidado, ele é melhor atendido, afinal, ninguém quer deixar um cliente esperando. Todo estabelecimento quer atender as necessidades dos clientes, pois esse tem escolha de buscar outro prestador de serviço, melhor e mais eficiente.

Essa visão tira da zona de conforto aqueles que não se importam com a qualidade do atendimento, e se você já utilizou serviços de saúde, sabe do que estou falando. Clientes fazem reclamações, exigem, elogiam e participam da construção do serviço que é feito para eles.

O ponto de conflito acontece porque com o paciente as orientações médicas podem, eventualmente, contrariar suas expectativas, mas são para o seu bem. O cliente não pode ser contrariado, ele é um consumidor, o pagador, e no comércio, o cliente tem sempre razão.

Quando pacientes exigem que seja feito um exame ou que seja prescrito um antibiótico, eles estão agindo como clientes exigentes e podem tomar péssimas decisões, pois simplesmente não detém conhecimento em saúde. Nesse momento, a autoridade do carimbo precisa se impor e ser respeitada, goste ou não.

Sua avó sabia que para perceber febre o melhor era colocar a mão sobre a testa e todo paciente é orientado a medir sua temperatura nas axilas. É impossível detectar febre a partir da temperatura das mãos, então lojas, shoppings e locais de trabalho que fazem isso não priorizam sua saúde, eles querem te agradar como a um cliente.

Ao procurar orientação e tratamento existe a chance de ser contrariado, alguns remédios são amargos, mais necessários. Trazer a lógica do comércio e exigir medicamentos e exames como quem vai à padaria certamente te fará mal.

Pacientes merecem respeito, serem ouvidos e bem tratados. Hospitais, clínicas e profissionais precisam atender melhor seus clientes, nós já percebemos isso.

Progressivamente os serviços de qualidade vão ganhando espaço. Seja exigente, mas tome cuidado, pois clientes impacientes correm o risco de receber o que querem ao invés daquilo que realmente precisam.

Manoel Vicente de Barros é Psiquiatra em Cuiabá e atua no tratamento de Depressão e Ansiedade, CRM 8273, RQE 4866.

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