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Bárbara Rubim: – A voz do povo não pode ser fake

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              A voz do povo não pode ser fake

Por: Bárbara Rubim

Desde 2012, o consumidor brasileiro pode gerar a própria energia e receber créditos em sua conta de luz, economizando. Essa possibilidade veio por meio da edição da Resolução Normativa 482, da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL).

Em maio de 2018, a ANEEL deu início a processo de revisão desta norma, propondo a revisão da forma como é valorada a energia produzida pelo consumidor a partir de fontes renováveis, por meio de sistemas de geração distribuída (GD).

De acordo com a Agência, ao permitir a compensação integral da energia consumida da rede de distribuição pela energia injetada, o prosumidor (como é chamado o consumidor que produz a própria energia) deixa de remunerar alguns agentes do setor elétrico, que vão ter que buscar sua remuneração por outras vias – como, por exemplo, por meio de aumento tarifário aos demais consumidores.

Por outro lado, a geração de eletricidade próxima aos centros de consumo é benéfica ao setor elétrico, auxiliando no fortalecimento de diversos atributos importantes, tais como a redução de perdas técnicas (aquelas que ocorrem porque a energia precisa ser transportada por grandes distâncias), a redução no fator de carga das redes (reduzindo a necessidade de expansão da rede de distribuição e/ou aliviando a rede em momentos críticos), a redução – no médio e longo prazo – da quantidade de energia a ser contratada em leilões para abastecimento da sociedade, etc.

O grande desafio que se colocou à frente da ANEEL foi, assim, o de calcular o benefício e o impacto de cada um dos lados da balança de modo a se conseguir chegar a um possível caminho ideal – caso, da análise, venham resultados concretos, isentos e embasados capazes de demonstrar o desequilíbrio e o dano imediato passível de ser causado pelo caminho atual.

De maio para cá, muitas discussões, debates e análises foram feitas por todos os agentes do setor. Para não alongar muito este texto, citaremos apenas um exemplo, que, a nosso ver, é bastante icônico e representativo do momento atual:

A análise publicada pela Agência em janeiro de 2019 (Análise de Impacto Regulatório) foi marcada por um erro metodológico em uma das planilhas de cálculo que fez com que o resultado obtido trouxesse um equívoco com relação ao possível impacto causado pela geração remota ao setor elétrico. O tamanho do equívoco? Módicos bilhões de reais. Reconhecido o erro e corrigida a planilha, a própria metodologia adotada pela Agência levaria à recomendação de alternativa de mudança mais branda para a geração remota do que a trazida na análise anterior e, por consequência, sugerida pela ANEEL como caminho a seguir em sua nota técnica. Ou seja, a geração remota poderia sofrer desvalorização de sua energia na casa de 28% (alternativa 1) ao invés dos cerca de 40% (alternativa 3) propostos inicialmente.

Não obstante isso, as manifestações recentes dos diretores da ANEEL têm indicado que a Agência considera, na verdade, adotar premissa ainda mais severa para ambas as modalidades (junto à carga e remota) – ao que parece desconsiderando 1) o equívoco anterior; 2) as análises anteriores; 3) a mensuração de qualquer benefício da GD ao setor.

Esses fatos, aliados a recentes entrevistas e colocações bastante controversas, têm alimentado nos consumidores, nos trabalhadores, nos empresários e na sociedade a preocupação de que o processo de revisão da REN 482 possa falhar em sua missão de realizar uma análise metodologicamente acertada, tecnicamente forte e, acima de tudo, imparcial sobre este importante momento vivido no setor. Essas preocupações têm se manifestado de diversas formas.

Uma delas são as quase 200 mil assinaturas que a petição criada pedindo o #CenarioZero482 já possui.

Para garantir que a não haverá dúvida de que existe uma grande parcela da sociedade que apoia a geração distribuída e defende, ao menos por ora, a manutenção das suas regras tais como estão, iniciou-se de forma orgânica um movimento que diz claramente: #TaxarOSolNão.

É bastante claro que o processo de revisão em questão não objetiva estabelecer uma taxação ao uso da irradiação solar. Contudo, é inegável que o efeito prático ao cidadão, consumidor, comerciante e produtor rural será praticamente esse. O do desestímulo. Desestímulo à geração própria num momento em que essa possibilidade traz mais de 45 mil empregos ao país, R$ 6,5 bilhões em investimentos, e, quiçá, a economia de 90% nos custos com eletricidade do Poder Público, se o Executivo for bem sucedido no desenvolvimento de projeto de geração própria por meio do sol, conforme recentemente anunciado pelo nosso Presidente (mas somente se sair antes da revisão da REN 482).

Logo, #TaxarOSolNão é, como aprendemos no colégio, a metáfora sendo usada para ajudar a explicar a realidade de forma mais lúdica – chamando a atenção para que as pessoas procurem conhecer o tema e se engajar mais. Em processos complexos, o lúdico é essencial. No setor elétrico, um bicho extremamente complexo*, essa pode ser a única forma de verdadeiramente se envolver mais a sociedade. Não é exatamente isso que a Agência faz ao dizer que “a nossa conta de luz tem vilões?” (ou será que ela espera mesmo um mocinho? Será que devemos contar que esse mocinho é a geração distribuída?).

A sociedade tem enviado uma mensagem clara de que há um descontentamento profundo com relação à forma como a revisão da REN 482 tem sido conduzida pela Agência. É no mínimo triste que a resposta da ANEEL a tal mensagem não seja buscar compreender o descontentamento e, se possível, demonstrar a tecnicidade e imparcialidade de suas análises, construindo o diálogo, mas sim descreditar o movimento, as pessoas e o esforço feito.

Se a voz do povo, que dizem ser a voz de Deus, é falsa, qual será a verdadeira?

*O setor elétrico é um conjunto complexo de agentes regulados, e não um bicho de verdade.

Bárbara Rubim é CEO da Brigth Strategies

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Laura Petraglia: – Quando o amor não resiste à Pandemia

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          Quando o amor não resiste à Pandemia

Autora: Laura Petraglia

Não sou nenhuma especialista comportamental, muito menos em relacionamentos (ironicamente minha vida amorosa que o diga), mas, desde que começou a Pandemia da Covid19 e a recomendação de distanciamento/isolamento, como jornalista curiosa em comportamento humano, ouvinte atenciosa de desabafos dos amigos e bela observadora que sou, comecei a notar diversos relacionamentos desabando ao meu redor nos últimos 40 dias, isso sem falar dos famosos que anunciaram a separação neste período.

Diante disso, meu objetivo com esse artigo é que façamos juntos, uma reflexão sobre a volatilidade e fragilidade das relações que temos cultivado e por que, cada vez mais, nos tornamos uma multidão de sozinhos. Nunca antes dessa quarentena a frase ‘cuidado com o vazio de uma vida cheia demais’ fez tanto sentido para mim. A gente liga o piloto automático e vai passando por cima daquilo que devíamos tentar entender e consertar nas relações. Vai preenchendo os problemas e a ‘solidão a dois’ dos relacionamentos com compromissos sociais, trabalho, consumo e outras condutas que não nos faça ter tempo para o cultivo.

Meus pais foram casados pela vida toda e, assim como no casamento dos meus avós, só existia para eles a opção do o ‘até que a morte os separe’. Passei vida ouvindo-os dizer que eram de uma época em que se as coisas quebravam, buscava-se consertar e não jogar fora. Mas usei esse contexto para dizer que maioria das narrativas dos casais com quem tenho conversado e que decidiu se separar durante a quarentena, diz que a convivência diária ‘forçada’ durante esse período trouxe à tona as mazelas que vinham colocando embaixo do tapete ou que foi a gota d’água que fez o copo transbordar. É óbvio que não somos obrigados a viver infelizes, mas por que nos tornamos tão preguiçosos e impacientes no cultivo das relações?

O fato é que amparados sempre na justificativa da falta de tempo e pela vida corrida demais, preferimos ir ‘passando por cima’ de comportamentos que nos incomodam em nossos parceiros ou, ainda, não ‘desgastar’ a relação com longas conversas. Mas o problema é que amor é cultivo diário, é como planta que precisa ser regada, na maioria das vezes aparada, podada para poder crescer no formato certo e florir e, quando a vida parou durante esse isolamento social, quando a gente se viu com tempo e obrigado a olhar para si mesmo e para a pessoa que está ao nosso lado, percebemos que há tempos talvez venhamos regando ‘plantas mortas’ e que tempo de salvar a relação infelizmente já passou.

Então, ao final desse artigo deixo duas reflexões: durante a pandemia, quantas plantas mortas você já descobriu que tem regado? E, foi a pandemia que adoeceu as relações ou falta de cultivo que as fez morrer há tempos? Com a palavra você, leitor!

Laura Petraglia é jornalista, especialista em gerenciamento de crises e Marketing Político Digital, estudante de Direito e curiosa sobre o comportamento e as relações humanas

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